Há dez anos, Porto Alegre, então capital mundial da participação popular, recebia o primeiro Fórum Social Mundial – FSM e o primeiro Fórum de Autoridades Locais, este organizado diretamente pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Encontro internacional da diversidade, da utopia democrática e da esperança num outro mundo possível. Naqueles anos, o neoliberalismo, embora já em crise, ainda demonstrava uma força de atração poderosa. No Brasil, o governo de Fernando Henrique Cardoso caminhava para seu final. Uma verdadeira babel de ideologias, uma “internacional dos fragmentos” encontrava-se na capital gaúcha para traçar planos para um futuro mais humano e solidário.
Dez anos depois, o mundo mudou, assim como a esquerda e o próprio FSM. Um balanço mais acurado do Fórum ainda está por ser feito. É certo que ainda há um longo caminho a ser percorrido até o “outro mundo possível”, mas as condições políticas para a luta em favor da democracia, da liberdade e da justiça social são completamente distintas e mais favoráveis por diversos motivos.
A começar pelo fato de que seu antípoda, o Fórum Econômico de Davos, como bem observado pelo Presidente Lula, “já não possui mais o charme que pensava possuir dez anos atrás”. O neoliberalismo entrou em colapso e temas antes considerados “jurássicos”, tais como regulação de capitais, planejamento, melhoria dos serviços públicos, retornaram com força até mesmo no coração do capitalismo global.
Somem-se a este fato as inúmeras vitórias populares que alteraram, por completo, a geografia política sul-americana. Partidos e frentes de esquerda governam países que, outrora, eram sinônimos de desregulamentação, privatização de serviços públicos e submissão aos organismos financeiros internacionais.
No Brasil, país que abrigou as três primeiras edições do Fórum Social Mundial, há muito do que nos orgulharmos. Sem ufanismo, podemos afirmar que o PT, com Lula, realiza a mais exitosa experiência de governo da esquerda mundial hoje. Afinal, trata-se de um governo popular, que retira milhões de brasileiros da miséria e amplia conquistas sociais em um ambiente político de consolidação e respeito ao Estado Democrático de Direito e plena liberdade de imprensa.
É certo, no entanto, que as idéias neoliberais ainda possuem grande força, inclusive no Brasil. E mesmo após a queda do “muro de Wall-Street”, a direita quer avançar, agora unida aos “neocons” americanos, sobre o continente europeu e outras partes do globo. A crise humanitária e ecológica a que o mundo se submete hoje, ainda está longe de seu desfecho.
O mundo possui em torno de um bilhão de miseráveis, segundo a ONU. Calcula-se que cerca de 642 milhões de pessoas sofram de fome crônica na Ásia e no Pacífico. E mesmo nos países desenvolvidos, são 15 milhões de pessoas a passar fome. As mudanças climáticas podem contribuir para a ampliação destes números e o mundo desenvolvido foi incapaz de apresentar respostas consistentes na Conferência de Copenhagen, realizada recentemente. A tragédia do povo haitiano, que nos toca profundamente a alma, apenas ilustra o grau de desigualdade e a extensão da miséria a que o mundo foi submetido pelas longas décadas de hegemonia neoliberal. Um país arrasado não somente por um terremoto, mas, também, pela miséria e por uma “ordem global”, que se pretendeu eterna.
Mas o Fórum e a esquerda que não se resignou estão aí, a demonstrar a urgência de um novo mundo. Impasses e limitações devem ser superados pelo “processo FSM” nesta nova década. A aproximação entre os governos populares e esta sociedade civil global que se articula através do Fórum deve se aprofundar. É preciso reinventar a democracia moderna, incorporando os inúmeros recursos tecnológicos disponíveis para criarmos, enfim, uma cidadania global, na qual os valores de solidariedade presidam e organizem as relações entre os países atinjam positivamente o próprio comportamento das grandes corporações multinacionais.
É preciso mobilizar esta cidadania global em defesa do meio ambiente e do equilíbrio da relação do homem com a natureza. Despertar um ativismo ecológico transnacional é tão importante quanto foi o internacionalismo proletário do século XX, mobilizado contra o fascismo, o colonialismo e contra a guerra por tantas vezes.
Mas, a consciência de que habitamos o mesmo planeta e compartilhamos a mesma utopia não é suficiente para gerar potência política transformadora. Se há algo que a experiência de dez anos nos ensina, é que de nada adianta nos prendermos em intermináveis discussões se não formos capazes de organizar a luta dos povos em escala global. As gigantescas mobilizações de massa, em todos os continentes, contra a guerra do Iraque – fruto da articulação do processo FSM – mostraram que é possível despertar esta cidadania global em torno de uma agenda comum.
Estes são alguns dos desafios da esquerda não resignada neste inicio de século. Apesar de abalado, o neoliberalismo resiste. Os ventos chauvinistas que sopram no velho continente, despertando sua fúria contra os imigrantes do mundo subdesenvolvido, devem nos servir de alerta: A barbárie sempre pode ir além dos nossos piores pesadelos.
Felizmente, nestes dez anos de Fórum também obtivemos grandes conquistas, amadurecemos e renovamos nossa esperança no futuro. E se, hoje, temos um espaço comum para realizarmos balanços e apontarmos os erros e acertos cometidos, foi por que há dez anos, ousamos compartilhar nossas inquietações, respeitando, democraticamente, nossa pluralidade. Chegaram a dizer que o Fórum era um encontro do passado e se dissolveria em poucos anos. E hoje, novamente em Porto Alegre, podemos afirmar com um leve sorriso no rosto: Davos é o passado, nós seremos o futuro.
Tarso Genro foi Prefeito de Porto Alegre durante o primeiro Fórum Social Mundial, foi Ministro da Educação e atualmente é Ministro da Justiça. Vinicius Wu é historiador e Assessor Especial do Ministro da Justiça.
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