Assim como a queda do muro de Berlim implodiu toda a arquitetura do marxismo vulgar com sua visão científica do proletariado messiânico, que era um “derivativo” de uma sociologia positivista-naturalista, a “crise do sub-prime” dissolveu a empáfia neoliberal que se abrigava no desprezo das funções públicas do Estado. O marxismo vulgar gerou uma simplificação impotente das relações entre capitalismo e democracia e o neoliberalismo sustentou que a democracia era o próprio mercado. O neoliberalismo, tornado um anarquismo da classe média baixa (Hobsbawn), passou então a acolher no seu leito bem remunerado tanto os profetas das agências de risco como sociólogos pós-modernos tornados missionários da anti-esquerda.
O positivismo-naturalista do marxismo vulgar professou o “caminho único” da inevitabilidade do socialismo como uma espécie de etapa necessária do capitalismo desenvolvido. O neoliberalismo bastou-se a si mesmo, não precisava olhar para o futuro, pois bastava a “sublimação histérica do presente”, sem regulação para que o mercado nos salvasse. O ex-Presidente do FED, Alan Greenspan, fez a sua autocrítica dizendo que os dirigentes corporativos lhe enganaram, pois eles deveriam ser mais bem comportados. Outros ficaram tão possessos que chegaram a dizer que o neoliberalismo era uma “fraude conceitual”. Livraram-se rapidamente da sua paixão pelo mercado e fizeram ataques preventivos à esquerda e à direita, como novos messias do desastre.
Depois da queda do muro, choveram artigos de todas as origens ideológicas. A maior parte da esquerda expondo seus erros, suas misérias teóricas ou seus equívocos históricos. Os vencedores aproveitaram para forçar a barra do “caminho único” e instalar uma completa dominação ideológica nos meios de comunicação e no âmbito dos principais partidos políticos, para registrar o fim da História. O mais positivo deste período, para nós de esquerda, foi a emergência de um novo republicanismo democrático, comprometido com liberalismo político e os direitos humanos, desacreditando a conexão entre socialismo-ditadura de classe. Tratou-se de reiniciar um projeto utópico, ainda balbuciante, para substituir a visão anterior de um projeto socialista fechado por um socialismo como idéia reguladora da democracia pluriclassista e da economia política.
Entre 1989 e 2008 os neoliberais “lavaram a égua”, como se diz no meu Rio Grande. Conseguiram criar uma cultura dinossáurica: a esquerda como símbolo do atraso, a direita como identificada com a liberdade, o Estado como sinônimo de impedimento e símbolo da incompetência e a iniciativa privada como refúgio da pureza e da moralidade, o mesmo Estado que agora é chamado para pagar a conta do risco e da imprevisão. É o Estado que atrapalhou o desenvolvimento e o pregresso: o risco não previsto pelas agências do mesmo nome se impôs como regulador do caos.
“No novo contexto global, a democracia liberal promete mais do que pode cumprir.” Num belo filme de Nani Moretti, ele mesmo diretor e ator, Moretti aparece defronte a televisão esforçando-se para influenciar D’Alema, através da telinha, que debatia com Berlusconi. Ele dizia nervoso: “fala, D’Alema! por favor responde!” O querido mestre a centro-esquerda italiana, segundo a visão de Moretti “não respondia”, por isso perdeu aquele páreo eleitoral.
Estamos aqui numa situação semelhante. No contexto neoliberal a democracia cumpriu bem menos do que uma globalização cooperativa - como a que poderá surgir da atual crise - poderia ter cumprido. Mas a esquerda tem que falar. Fale, esquerda! Mas fale fora da ortodoxia pré-muro. Caiu o Muro de Berlim das agências de risco e nós não dissemos nada. Caiu o socialismo burocrático, ruiu a social-democracia, morreu o financeirismo neoliberal e estamos todos quietos.
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