27/03/2008 17:33
O Leninismo como raiz da crise socialista*
*Com este pequeno trabalho reviso a minha posição sobre o legado de Lenin, que eu e um grupo de ativistas intelectuais criticamos, a partir das elaborações de Adelmo Genro Filho, em meados de 1987. Como se sabe esta crítica tornou-se hegemônica, na esquerda brasileira, no início dos anos 80, embora ela já o fosse após maio de 68, na Europa.

I
O leninismo promoveu contribuições decisivas à conformação política do marxismo , tal qual ele se desenvolveu através da sua vertente soviética. O seu traço mais original, porém, foi a adaptação da teoria marxista da revolução proletária às condições especificamente russas (numa sociedade “gelatinosa” diria Gramsci), mormente no que refere ao partido revolucionário e à questão do Estado.
A ação política e organizativa de Lenin permitiu combinar, na Rússia Czarista, uma revolução democrática ocidentalizante a partir de 1905, com a primeira experiência de um regime econômico e de um Estado Socialista. A teoria do “Partido Revolucionário da classe operária” e a compreensão do marxismo como “guia para ação”, alcançaram em Lenin a sua elaboração mais refinada.
Assim como os seguidores do marxismo soviético posteriormente empobreceram o leninismo, os críticos mais brilhantes de Lenin, como Rosa de Luxemburgo, não criaram nada que o superasse. Foram as teorias de Lenin sobre as questões político-organizativos do proletariado que influenciaram os partidos comunistas em todo o mundo ocidental e também foram decisivas para a Revolução de 1917.
Como formação social, a Rússia feudal e pouco burguesa, era considerada por Lenin um elo “fraco” do esquema capitalista mundial. Tal constatação implicava para ele, na prática, em educar os operários para enfrentamentos muito específicos: de um lado, mostrando-lhes a ineficácia do populismo e do anarquismo, arraigados em parte do campesinato sob o jugo da autocracia czarista; de outro, combatendo o “economicismo” e o liberalismo, como vertentes modernas que depreciavam da necessidade de uma organização “novo tipo” para disputar o poder e assim construir um novo Estado.
Tratava-se, portanto, - para Lênin - de promover uma revolução concreta numa formação social concreta e “fundar” um Estado proletário. Fundá-lo, porém, não como continuidade superadora, mas como ruptura frontal com o Estado autocrático. A vigilância, em relação aos “desvios” deste rumo pré-traçado, iria ser uma das obsessões de Lênin.
Lenin partia do pressuposto que a burguesia russa, juntamente com parte da aristocracia, poderia prolongar o Estado autocrático com reformas superficiais. Para isso bastaria – crítica que ele também associava a seus adversários internos no POSDR* - domesticar a revolução democrática, já em curso desde 1905 .
O ponto-de-partida de Lênin, então, era sustentado por uma visão que combinava um certo “positivismo-naturalista” (característico do marxismo soviético), com uma forte dose de “subjetivismo. Através do positivismo-naturalista ele definia a marcha imperiosa do socialismo, engendrada pelo próprio desenvolvimento do capitalismo. Através do subjetivismo voluntarista ele sustentava que o proletariado poderia – com a ajuda dos países desenvolvidos – ser o “sujeito” de uma revolução socialista na Rússia czarista, mesmo que o capitalismo russo não estivesse plenamente desenvolvido.
Do ponto de vista filosófico aquele cientificismo, que muitas vezes assediava o discurso teórico de Lenin, chegou a redundar - na versão apologética de Althusser – na tese de que Lenin antecipava, nos seus textos filosóficos, o que poderia ser, um dia, “uma teoria não filosófica da filosofia” : uma teoria “científica”, logo, a consagração de uma verdade acima de qualquer dúvida metafísica. Tal teoria “não filosófica” certamente dispensaria a dúvida intelectual, característica da reflexão filosófica, o que redundou num certo antintelectualismo, amplamente propagado nas camadas mais ignorantes e sectárias dos adeptos de Lenin.
Às vezes os intelectuais poderiam, segundo Lenin, “atrapalhar”, como se vê da sua opinião inscrita numa carta a Gorki: “O papel dos intelectuais desce no nosso partido; diz-se por todo o lado que eles desertam do partido. Que o bom vento os leve, a esses miseráveis. O partido livra-se assim dos detritos pequeno-burgueses. Os operários têm cada vez mais as coisas na mão. O papel dos militantes operários acentua-se. Tudo isto é maravilhoso”.
Tal posição levaria Lenin, por vezes, a desdenhar das indagações filosóficas da inteligência, em nome da necessidade de afirmar a unicidade da consciência-de-si do proletariado como consciência científica. Tal posição, em essência, substitui a analise científica rigorosa pelo império da vontade subjetiva que o próprio Lênin encarnava como dirigente.

Lukács , num artigo de dezembro de 1918 que é considerado um clássico da dúvida intelectual a respeito do bolchevismo, debate sobre se é possível por “meios impuros” chegar a fins “puros”, avaliando, assim, as relações entre a democracia, que os bolcheviques consideravam como mera tática para chegar à ditadura do proletariado e ao socialismo, como forma superior de democracia.
Estas dúvidas o bolchevismo, sob inspiração de Lenin, não poderia tolerar. Na harmonia do Partido, para enfrentar o confronto de classes, (no qual o proletariado como classe dirigente deveria mover-se unificado), residia a principal vantagem comparativa para enfrentar o czarismo, rigidamente sustentado na dura burocracia czarista e nas suas estruturas repressivas .
Ressalte-se que o profundo “compromisso subjetivo” de Lenin já estava claro na sua famosa carta a Kamenev de Julho de 1917: “Entre nous: se me matarem, peço-lhe que publique meu caderno ”Marxismo & Estado” (atolado em Estocolmo). Está coberto por uma capa azul. É uma coleção de todas as publicações de Marx & Engels, e igualmente de Kautsky contra Pannekoek. Há uma série de comentários & notas, formulações. Penso que com uma semana de trabalho poderia ser publicado. O considero importante já que não só Plekhanov, mas também Kautsky se extraviaram. Uma condição: tudo isso é entre nous”.
Prossegue o mesmo autor: “O compromisso existencial aqui é extremo, e o coração mesmo da “utopia” leninista surge das cinzas da catástrofe de 1914, conforme o ajuste de contas com a ortodoxia e a Segunda Internacional: o imperativo radical de quebrar o estado burguês, que significa o Estado como tal, e inventar uma nova forma social comum, sem exército, polícia ou burocracia (...). Quando, em suas Teses de abril de 1917, Lenin pode discernir o Augenblick, a oportunidade única para a revolução, suas propostas se encontraram em primeira instância com o estupor e o desprezo da grande maioria de seus colegas do Partido. Dentro do partido bolchevique, nenhum líder proeminente apoiou seu chamado à revolução, e o Pravda tomou a extraordinária decisão de dissociar o partido, e o comitê editorial em seu conjunto, das Teses de abril de Lenin (...). Bogdanov caracterizou as Teses de abril como ”o delírio de um louco” (Harding, op. cit., pág. 87), e a própria Nadezhda Krupskaya concluiu: “tenho medo, parece como se Lenin tivesse perdido a razão” (ibid.)”.
Na verdade, em 1917, os operários russos de cidades industriais como Petrogrado tiveram grande importância para a tomada do poder, como queria e previa Lenin. Mais difícil seria manter o seu apoio, posteriormente a tomada do poder, no interior de uma sociedade democrática .
O fracasso das revoluções socialistas no ocidente, que isolou a Revolução Russa dos países industriais maduros, trouxe conseqüências imprevistas. Uma delas foi afastar qualquer resquício de “controle operário” na condução do Estado e na produção, posteriormente à Revolução de Outubro de 1917. Tal “controle” foi fulminado pela necessidade, para enfrentar a guerra civil, de uma administração centralizada e autoritária em relação aos próprios operários.
II
A obra de Lenin é extraordinariamente abrangente. Ela vai da teoria política da revolução (“Um passo adiante dois passos atrás”), economia (“Imperialismo etapa superior do Capitalismo”), filosofia (“Materialismo e Empirocriticismo”), teoria do Estado (“Estado e Revolução”), até a história econômica (“Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia”). Lenin, porém, sempre escreveu e estudou para responder às necessidades da política e isso significava responder às questões teóricas e organizativas da Revolução Russa.
Algumas das idéias mais importantes de Lenin extraídas dos seus artigos, livros e opúsculos de agitação, ficam claras nos seus textos de política e filosofia. Por exemplo: a defesa do “idealismo inteligente” contra o “materialismo burro” (sua compreensão do lado “ativo” do conhecimento e do papel da consciência); a defesa da organização dos operários de “vanguarda” como “consciência antecipada” da classe (sua crítica ao espontaneísmo e ao classismo “idealista”); a defesa da democracia e da republica como mera tática da luta socialista (seu juízo sobre as liberdades políticas e o Direito, considerados só como instrumentos, já que para ele o Estado era puro particularismo de classe); a defesa - na transição para o socialismo - da ditadura do Partido e, num segundo momento, a defesa do capitalismo de Estado, como passo incontornável para a construção do socialismo (seu pragmatismo de homem de Estado, que então substitui o poder “proletário” pela ditadura do aparato).
Tático e estrategista da Revolução, com enorme capacidade intelectual e organizativa, a ação pessoal de Lenin foi decisiva para a derrocada da autocracia czarista. Diferentemente de Rosa de Luxemburgo, que via os movimentos operários como os “apressadores” de uma revolução fatalmente em andamento, Lenin – mais além da idéia da fatalidade do socialismo no mundo - localizava na organização da consciência avançada da classe na Rússia (através dos operários revolucionários e dos intelectuais radicais) o fator determinante para uma “revolução proletária”, que só se constituiria com a superação da consciência “empírico-psicológica”, característica da vida ordinária da classe .
A teoria leninista do Partido, fundada na necessidade da organização formal da “consciência avançada”, demandava uma ética especial e é também uma “estética” da revolução socialista. Para Lenin o Partido, além do verdadeiro conteúdo histórico da classe revolucionária, do qual deriva uma ética bolchevique, é também uma forma arbitrada pelos intelectuais que defendem um humanismo radical: uma forma (o partido) submetida a um contrato moral de profissionalismo revolucionário (que produz o seu conteúdo “científico”).
Parodiando Borges (“Otras Inquisiciones”) a revolução proletária na história, assim, seria também produto deste “fato estético (forma) que reside na iminência de uma revelação (de conteúdo) que não se produz”. A Revolução de Fevereiro produziu-se como luta pela democracia e depois fez-se, arbitrariamente, “revolução proletária de outubro”: oitenta anos após converter-se-ia em revolução burguesa tardia.
III
A teoria leninista de Partido separa o sujeito (grupo de profissionais da revolução) do objeto (classe operária). Esta classe operária, (o “objeto-classe”), sobre a qual o Partido incide, é – como conseqüência - nitidamente separada do Partido. A organização interna do Partido é determinada por regras que conscientemente reproduzem esta separação. Com base na visão de que a classe é espontaneamente “trade unionista”, os bolcheviques liderados por Lenin entendiam que o membro do Partido deveria, seja ele operário ou não, aderir à classe, mas o membro da classe não seria, só pela sua vontade, membro do Partido.
Em texto escrito no fim dos anos 80 propus a seguinte síntese, que mantém certa atualidade: “Para Lenin, tido como sujeito revolucionário, o Partido era extraído e separado da classe. O Partido era o sujeito político-prático da revolução. O objeto era, em primeiro lugar, a classe, que precisava ser transformada; e, em segundo, a sociedade, que necessitava ser revolucionada. Neste ponto de intersecção, a classe operária podia ser considerada como sujeito em relação à sociedade, à medida que fundia-se (pela política e não organicamente) com o Partido. Nesta separação do sujeito / objeto, neste dualismo entre o Partido e a classe, portanto, não havia uma unidade dinâmico-dialética do sujeito / objeto como processo permanente, mas apenas em situações especiais” . (...)
A visão de separação do sujeito / objeto, ou seja, de que o Partido deveria ser separado da classe e de que o Partido, separado da sociedade, tornar-se-ia sujeito da revolução (vontade organizada que escolhe o sentido da ação), determinou um tipo de estrutura formal e uma relação jurídica interna que gerou uma série de conseqüências. Elas desembocaram, mais tarde, no processo de burocratização do partido e do Estado na União Soviética, criando condições para o surgimento do stalinismo.
Prossigo naquele mesmo texto: “nessa separação do sujeito e do objeto, isto é, se o Partido era sujeito em relação ao proletariado e, em conseqüência, sujeito no conjunto do movimento histórico, seria necessário que o Partido se reconhecesse no processo da luta de classes como a verdade em movimento, outorgando-se o direito, por exemplo, de decidir pelas massas quando as massas estivessem erradas. (...)
Testemunhamos esta experiência, no processo revolucionário russo, quando houve uma insurreição de marinheiros anarquistas e bolcheviques contra o poder soviético (Kronstadt), reivindicando liberdade sindical e uma série de reformas contra os métodos de direção que o governo bolchevique vinha adotando. O Partido, então, deu-se o direito, em nome da verdade (enquanto sujeito, e portando enquanto dono da verdade, no processo da revolução) de realizar um ataque militar devastador e sanguinário (inclusive empregando a aviação) contra os marinheiros que tinham sido esteio da Revolução Bolchevique. (...)
A partir desta visão, teremos como resultado um determinado tipo de partido, que se coloca, não só acima do pensamento e da compreensão média dos operários, mas que também, no seu continuum, é deformado por uma atitude de desprezo pelos elementos espontâneos originários do movimento de massas. Ele coloca-se sobre o movimento de massas como detentor de uma determinada verdade, que adquire, um falso estatuto científico, que termina na arrogância que freqüentemente desrespeita os limites possíveis da transformação revolucionária em determinada época”.
A concepção de que o Partido é o dono da teoria e que a sua filosofia identifica-se com a ciência, implica em que o grupo dirigente do Partido seja reconhecido como repositório da verdade. Ora quem se contrapõe a esta verdade orgânica adota o “erro” e o “erro”, sendo contra a ciência, é contra a humanidade e os seus agente podem e deve ser suprimidos, em nome desta mesma humanidade. Esta é a lógica que, em última análise, desenvolveu-se através do leninismo, eventualmente contra a vontade moral de Lenin, mas com certa coerência com os seus pressupostos.
IV
No debate dos anos vinte, em pleno auge da construção socialista, Lenin traduz a sua concepção de Estado no livro “Estado e a Revolução” (setembro de 1917). Naquele texto ele exibe, não só os limites da sua compreensão sobre o que poderia vir a ser um Estado Moderno maduro, mas também forja uma teoria pragmática do que viria ser o “socialismo soviético”.
Num texto canônico Lenin diz o seguinte sobre o Estado e sobre uma democracia “novo tipo”: “A democracia é uma forma de Estado, uma das suas variedades. E, conseqüentemente, ela representa em si, como qualquer Estado, a aplicação organizada, sistemática, da violência sobre as pessoas. Isto por um lado. Mas, por outro lado, significa o reconhecimento formal da igualdade entre os cidadãos, de direito igual para todos de determinar a organização do Estado e de o dirigir. E isto, por seu turno, liga-se ao fato de que num certo grau de desenvolvimento da democracia, ela, em primeiro lugar, une a classe revolucionária que está contra o capitalismo, o proletariado, e permite-lhe quebrar, demolir completamente, fazer desaparecer da face da terra a máquina de Estado burguesa, mesmo que republicano-burguesa, o exército permanente, a polícia, o funcionalismo, e substituí-los por uma máquina de Estado mais democrática, mas ainda uma máquina de Estado, sob a forma das massas operárias armadas que passam à participação de todo o povo na milícia.”
No poder, Lenin também apresenta uma fórmula simplista para o socialismo, despida de qualquer mediação, base para desenhar o novo modo da produção: “socialismo é = soviets + eletricidade”. A pergunta que grita é: qual o Estado que pode controlar e induzir esta tarefa?
Lenin defende (coerente com a simplicidade da sua fórmula socialista) uma ditadura em nome do proletariado. E o faz com idéias eficazes, para manter unificado um grupo político em torno de tarefas claras: ”Esta experiência histórica de todas as revoluções, esta lição – econômica e política – de alcance histórico universal, foi resumida por Marx ao dar uma fórmula breve, incisiva, precisa e brilhante: ditadura do proletariado. (...) Pois o Poder Soviético não é outra coisa, senão a forma organizativa da ditadura do proletariado, da ditadura da classe avançada, que eleva a um novo democratismo e a uma participação independente na administração do Estado dezenas e dezenas de milhões de trabalhadores e explorados, os quais aprendem com a sua própria experiência a ver na vanguarda disciplinada e consciente do proletariado o seu chefe mais seguro. Mas ditadura é uma grande palavra. E as grandes palavras não devem ser lançadas ao vento. A ditadura é um poder férreo, de audácia e rapidez revolucionárias, implacável na repressão tanto dos exploradores como dos arruaceiros. Mas o nosso poder é excessivamente brando e muitas vezes parece-se mais com gelatina do que com ferro.”
É impossível uma maior limpidez. Dela emana uma força purificadora, que insinua um recomeço da História moderna e também um recomeço do ser humano idealizado pelo messianismo proletário. O que Lenin diz, com esta síntese, é assimilável por qualquer operário tornado quadro político. Em primeiro lugar, como Robespierre no “Terror”, ele estimula a violência arbitrária “de classe”, ao invés de contê-la e organizá-la através de formas superiores às formas praticadas pelo Estado autocrático.
Em segundo lugar, Lenin aponta para a imprestabilidade de todo o aparato estatal, que deveria ser substituído, através de uma “ação implacável” tanto contra os exploradores como contra os “arruaceiros”. O alvo, portanto, já não era mais somente a “burguesia” e os seus agentes: era também o “arruaceiro” que se opusesse ao “movimento real da classe” revolucionária, independentemente de sua origem social e convicção política.
A repressão e a violência sem forma jurídica e sem um reconhecimento público de legitimidade sempre reduzem, tanto o crime, como o dissenso. Mas, como as fontes alimentadoras da criminalidade e da divergência não são sufocadas, o crime e o dissenso tendem a ser monopolizados e internalizados no próprio Estado: a ditadura, nestas condições, torna-se pura coerção do aparato e os níveis de consenso, por ele obtidos, são pura aparência, pois erguem-se sobre a coerção estatal sempre combinada com a informação manipulada.
Na verdade, Lenin sempre contrapôs ao conceito abstrato de democracia (que classificava como “puro conjunto de formas jurídicas”), um conceito difuso de democratismo a partir de movimento real da classe. Tal concepção, na prática, descambou para a identificação do movimento real da classe com o aparato partidário e, após, com um reduzido grupo do Comitê Central, que depois condensa no stalinismo o seu produto deformado da “práxis” socialista.
As suas raízes teóricas mais fundas, porém, derivam de uma suposta visão da “dialética materialista“, pela qual a consciência hegemônica (que se transforma em forma jurídica) não é, ela mesma, considerada integrante do concreto. Nesta visão, o concreto é só a pura materialidade, pois a forma jurídica não sendo palpável como materialidade (como é, para Lenin, o movimento empírico da classe) é considerada, exclusivamente, como “abstração” (“superestrutura”). Fica apagado, assim, nesta operação teórica forçada, o momento da inteligência que produz a imaginação da forma. Como conseqüência basta, para promover uma legitimidade aparente, apontar o “interesse histórico” da classe, localizado através de uma visão científica do mundo.
Para Lenin, portanto, o movimento empírico não necessita de qualquer forma jurídica específica para organizar um novo processo de dominação, pois aquele movimento já é uma democracia superior. Assim, a nova ordem social e estatal não precisa de uma forma jurídica superior àquela originária do direito republicano democrático.
A ausência de uma teoria superior das formas jurídicas para compor a nova ordem, pensadas e “pré-vistas”, levaram à ditadura burocrática amparada nas formas jurídicas tradicionais, já degradadas a funções puramente instrumentais para o Partido.
V
A visão que Lenin ousa “adiantar”, para a realização da Justiça Penal no comunismo, baseia-se também no argumento de que as formas jurídicas “burguesas” desaparecem na espontaneidade legitimada pela violência com origem de classe: ”Finalmente, só o comunismo torna o Estado completamente desnecessário, pois não há ninguém para reprimir“ninguém” no sentido de uma classe, no sentido de uma luta sistemática contra uma parte determinada da população. Não somos utopistas e não negamos de maneira nenhuma a possibilidade e a inevitabilidade dos excessos de determinadas pessoas, e igualmente a necessidade de reprimir tais excessos. Mas, em primeiro lugar, para isto não é necessária uma máquina especial, um aparelho especial de repressão, isto fa-lo-á o próprio povo armado com a mesma simplicidade e facilidade com que qualquer multidão de homens civilizados, mesmo na sociedade atual, separa pessoas envolvidas numa briga ou não permite violência contra uma mulher. E, em segundo lugar, sabemos que a causa social fundamental dos excessos, que consistem na violação das regras da convivência, é a exploração das massas, a sua necessidade e miséria. Com a eliminação desta causa principal, os excessos começarão inevitavelmente a “extinguir-se”. Não sabemos com que rapidez e gradação, mas sabemos que se extinguirão. Com a sua extinção, extinguir-se-á também o Estado.”
O “lado” ativo do conhecimento, que buscaria pensar uma forma jurídica adequada para propor uma conduta previsível, para dominantes e dominados, (visando dar vazão à ordem imaginária de um novo “poder de classe”) é, assim, totalmente desconsiderado. Neste percurso, pelo menos uma parte significativa do Direito Público torna-se só continuidade de um poder de fato. Através dele os Tribunais e as formas constitucionais tornam-se meros ritos de um poder absoluto. Um poder, portanto, que supostamente instaurado pela classe operária, não depende de outra legitimação que não a do seu próprio movimento. Esta ficção de legitimidade é, progressivamente, depois depositada no Partido e, sucessivamente, no Comitê Central e, a seguir, numa só pessoa: Stálin.
Que Lenin acreditasse nas suas formulações e as usasse pragmaticamente para atacar a dominação feudal-burguesa em “xeque” é compreensível, pois a sua teoria do partido e da revolução proletária já apontavam francamente para uma “ditadura democrático-revolucionária dos camponeses e operários”, considerando a democracia republicana um ritual sem futuro.
Não é difícil identificar, nesta utopia esquerdista, a mesma essência da utopia direitista do mercado perfeito e da “mão invisível”, que se fundamenta na espontaneidade do consumidor no mercado, como fonte reguladora da vida social. Tanto a multidão operária em movimento, sem lei prévia que ajuste seu comportamento social, como o mercado, como fonte reguladora pura, subtraem a vontade regulatória que só pode se organizar de forma legítima nas instituições formais do Estado. Em ambos os casos – tanto no mercado como na ação espontânea da classe para fazer “justiça” - ficam sufocados os indivíduos e grupos sociais mais desprotegidos.
A agressividade imperialista posterior à Revolução de Outubro, a emergência dos fascismos a partir dos anos 30, a ditadura nazista, as intervenções militares imperiais na África, Ásia e América Latina (estas, contra revoluções ou reformas populares nos países coloniais ou neocoloniais) concorreram para a aceitação, pela esquerda, dos diversos padrões de autoritarismo, como instrumento para chegar ao socialismo ou mesmo para a construção de novos Estados soberanos. As concepções leninistas, nesta hipótese, foram aplicadas como instrumentos, tanto de revoluções presumidamente socialistas, como de lutas pela soberania nacional que se supunham transições para o socialismo.
O movimento comunista, já cindido gravemente desde a década de 60, formula nos anos 70, pelo maior PC do ocidente, o Partido Comunista Italiano, um confronto de fundo com os princípios do leninismo: “A estratégia do avanço democrático ao socialismo deve prever tanto a eficácia como a firmeza na ação do governo em relação às decisões adotadas, com todas as garantias constitucionais apoiadas por um amplo consenso de operários, trabalhadores, forças populares: que exigirá a luta no campo da cultura, da moral e dos costumes, para um posterior amadurecimento da consciência de classe e política”.
Trata-se de uma renúncia expressa, não somente do leninismo, mas também da idéia do comunismo, tal qual ela foi concebida pelos partidos soviéticos e maoístas. É sabido que, sem diluir as suas divergências, estes partidos do comunismo mostravam uma férrea unidade num ponto decisivo: a impossibilidade de, por dentro das teorias do iluminismo e das instituições democrático-republicanas, construir uma sociedade socialista.
O Leninismo, como se viu, chegou a considerar o próprio “movimento real de classe” como o fundamento da legitimidade para reprimir quem se oponha ao socialismo. Nele o sujeito (partido) e o objeto (classe proletária dirigida por ele) eram supostamente fundidos no “movimento real”, mas quem arbitrava o que era, efetivamente, o interesse histórico da classe operária, era o próprio partido: ou seja, o grupo ou o indivíduo dirigente. Fundia-se artificialmente, – assim - sujeito e objeto, eliminando a construção do concreto pensado, através de formas mediadas pela inteligência e pela experiência.
A impossibilidade, até o presente, de compatibilizar a democracia e o pluralismo com igualdade social – a ultrapassagem da igualdade formal para patamares decentes de igualdade social – é um dos elementos mais convincentes do apelo do messianismo proletário em geral e do bolchevismo em particular.
Se é verdade que a democracia e a república não são necessariamente garantias de igualdade e de justiça, não é menos verdade que, até o presente, esta “forma de Estado” – como a qualificava Lenin – foi a forma histórica que permitiu – com menos dor e violência - mais avanços culturais, sociais e institucionais em favor dos pobres e dos explorados. É possível dizer que uma sociedade humanizada, com níveis mínimos de desigualdade, só será realizada na sua plenitude quando o engenho humano unificar democracia e socialismo. Apostemos que pode ser possível, mas, como diria Lênin: “não sabemos com que rapidez e gradação”.

























Referências de Leitura

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Entrevista com Tarso Genro. enviado em 14/01/2009 13:41

CONSTITUIÇÃO SOCIAL E DIREITOS EFETIVOS enviado em 24/11/2008 14:04

Discurso do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama enviado em 07/11/2008 13:59

DISCURSO PANEGÍRICO enviado em 07/11/2008 13:57

MÉTODO E CONSTITUIÇÃO DIRIGENTE enviado em 03/11/2008 11:33

Milícias e Estado de Direito enviado em 30/06/2008 17:13

O Brasil da mídia e o Brasil real enviado em 03/04/2008 16:49

O Leninismo como raiz da crise socialista* enviado em 27/03/2008 17:33

São Paulo, domingo, 09 de março de 2008 enviado em 12/03/2008 13:34

DEMOCRACIA, SOCIEDADE E SUSTENTABILIDADE enviado em 07/02/2008 10:15

Carl-Herz-Ufer enviado em 29/01/2008 13:02

Segurança política e Direitos Humanos enviado em 18/01/2008 10:58

CRIAÇÃO DOS CURSOS JURÍDICOS NO BRASIL enviado em 10/08/2007 13:36

“REFORMA POLÍTICA É PROCESSO, NÃO ATO ISOLADO” enviado em 11/07/2007 09:56

A dispersão das ideologias enviado em 15/01/2007 13:41

Governo de Coalizão enviado em 15/12/2006 15:55

Uma lembrança por Günter Grass enviado em 15/12/2006 15:47

Mais além do populismo enviado em 20/11/2006 09:03

Moral e política na sociedade em movimento enviado em 19/10/2006 09:36

INSTABILIDADE E GOLPISMO enviado em 28/09/2006 16:03

ELEIÇÕES 2006 enviado em 26/09/2006 17:06

O FIM DA POLÍTICA enviado em 04/09/2006 10:31

A questão democrática como questão da esquerda enviado em 23/08/2006 10:01

EDUCAÇÃO enviado em 15/08/2006 15:09

REFORMA E PODER CONSTITUINTE enviado em 09/08/2006 14:38

VIA POLÍTICA enviado em 27/07/2006 14:10

Concertando a reforma enviado em 13/06/2006 10:36

Introdução à Reforma enviado em 06/06/2006 16:02

UNIVERSIDADE, COOPERAÇÃO INTERNACIONAL E DIVERSIDADE enviado em 24/05/2006 08:30

Ensaio para abril enviado em 05/04/2006 11:08

Sobre o entendimento enviado em 14/03/2006 15:39

Por que não sou candidato enviado em 07/02/2006 16:28

Os conteúdos da Revolução Democrática enviado em 31/01/2006 11:43

É possível combinar democracia e socialismo? enviado em 09/01/2006 11:47

Lula pode ganhar enviado em 29/12/2005 08:19

A crise política na revolução democrática enviado em 08/12/2005 15:38

O retorno da utopia enviado em 14/10/2005 10:12

NOTAS SOBRE UMA NOVA ETAPA NA POLÍTICA ECONÔMICA SOB enviado em 21/11/2005 10:07

O PT em seu labirinto enviado em 02/09/2005 15:30

Além do Fato: De Borges e do PT enviado em 27/09/2005 15:25

O PT, ele mesmo, como crise enviado em 08/07/2005 11:37

PALÁCIO DO PLANALTO enviado em 14/06/2005 11:21

Falsa polêmica enviado em 30/05/2005 11:18

Zero Hora - 28/04/2005 enviado em 28/04/2005 16:26

São Paulo, quarta-feira, 27 de abril de 2005 enviado em 27/04/2005 11:28

Passada a artilharia enviado em 03/03/2005 10:28

A FAVOR DA ELITE PLURAL enviado em 28/02/2005 15:16

Fazendo a reforma que precisa ser feita enviado em 11/02/2005 16:27

As raízes da crise na educação básica enviado em 18/01/2005 10:13

Orientando o preconceito enviado em 14/01/2005 15:56

Crise do Estado como crise política enviado em 13/01/2005 09:03

UNIVERSIDADE E NAÇÃO enviado em 04/01/2005 11:22

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL ZERO HORA - 03/01/2005 enviado em 03/01/2005 10:41

PT saiu derrotado destas eleições? enviado em 09/11/2004 10:47

Choques e voluntarismo enviado em 20/10/2004 08:41

A esquerda depois de Blair enviado em 16/06/2004 15:06

Educação e transição enviado em 27/07/2004 10:54

ESQUERDA E SEGURANÇA NA AVENTURA DA MUDANÇA enviado em 01/06/2004 13:59

Elitismo e esquerdismo enviado em 24/05/2004 16:55

Universidade para todos enviado em 17/05/2004 15:36

Entrevista enviado em 14/05/2004 16:24

Uma outra lição espanhola enviado em 07/05/2004 11:00

TEORIA CRÍTICA DA AUTOCOMPOSIÇÃO* enviado em 26/12/1991 10:40

Natureza jurídica do Direito do Trabalho enviado em 26/04/1991 10:28

CONTRIBUIÇÃO AO DEBATE SOCIALISTA* enviado em 04/08/2001 13:41

QUINZE PONTOS PARA UMA PERSPECTIVA ESTRATÉGICA DE CENTRO-ESQUERDA PARA O GOVERNO LULA enviado em 15/12/2003 13:05

GLOSSÁRIO PARA UMA “ESQUERDA DEMOCRÁTICA” (NO GOVERNO E FORA DELE)* enviado em 15/10/2003 12:04

FUNDAMENTOS PARA UM PROJETO DE INSTITUIÇÕES POLÍTICAS NO SOCIALISMO* enviado em 15/03/2001 12:55

Cotas, Direito e Democracia enviado em 12/04/2004 12:09

Reforma Universitária enviado em 25/03/2004 10:26

AULA MAGNA enviado em 22/03/2004 14:36

Kelsen e Renner conversam com Norberto Bobbio enviado em 17/02/2004 15:27

O governo Lula e a conciliação das elites enviado em 18/01/2004 15:16

Ética pública e elogio da serenidade enviado em 29/02/2004 14:49

Democratismo Globalitário enviado em 24/09/1990 04:24

Esquerdismo e Neoliberalismo enviado em 20/01/2002 00:37

Chávez e Lula enviado em 17/09/2003 00:26

Outras Lições Espanholas enviado em 29/05/2003 00:23

Utopia e Realismo na Esquerda enviado em 13/04/2003 00:21

O governo Lula e os novos especialistas enviado em 24/12/2003 00:03

Nem tão distante nem tão impossível enviado em 16/11/2003 23:57

O Mundo Respira no Fórum Social Mundial enviado em 04/02/2002 23:54

Esquerda em processo enviado em 18/05/2003 23:50

As Premissas da Concertação enviado em 28/09/2003 23:47

Socialismo e governo Lula enviado em 06/08/2003 23:43

Atravessar os limites enviado em 23/12/2003 23:40

A Dinâmica dos Conflitos enviado em 25/02/2001 17:59