15/12/2006 15:47
Uma lembrança por Günter Grass
Revista CARTA CAPITAL (impressa)
13 de Dezembro de 2006 - Ano XIII - Número 423




Um pequeno e magnífico conto de Günter Grass no seu livro "Meu Século" (Record, 2000), cujo título é "1936", relata o efeito das Olimpíadas daquele ano num campo de concentração da Alemanha nazista. Ali estavam prisioneiros políticos e presos comuns. Ele recorda - talvez até lutando contra os fantasmas da sua juventude - a atmosfera criada entre os guardas e prisioneiros face às vitórias e derrotas da Alemanha. As láureas conquistadas se diluíram como “glória”, quando da vitória do negro Jesse Owens contra os atletas da "pureza racial" ariana, propugnada por Hitler. Os prisioneiros, todos alemães, eram proibidos de comemorar. Eles não deveriam compartilhar com os guardas do Estado nazista nem as vitórias nacionais, que causavam grande alegria, e muito menos o recorde de Owens, o atleta negro americano. Os prisioneiros políticos eram os "mais proibidos" de vibrar.

A leitura do conto lembrou-me a posição em que se encontra, hoje, a maior parte da imprensa nacional, de um lado, e de outro, nós - militantes, filiados ou simpatizantes do Partido dos Trabalhadores - que fomos incriminados em grupo. Incriminação feita sem qualquer tipo de ressalva, que permitisse nos apresentar à sociedade como "não coniventes" com ilegalidades imputadas a dirigentes do Partido. Na história política do Brasil isso já fora feito, por distintas razões, com o velho PTB varguista e com o PCB. As lições da história não impediram que a atual grande imprensa privilegiasse e estimulasse um “concurso” para verificar quem levantava as acusações mais graves contra Lula e o PT. Sempre sugerindo que a situação seria inédita no país. Como se nossos adversários fossem a representação imaculada da pureza, auditores da dignidade pública. Como se nunca tivessem governado o país - e nós fôssemos os instauradores da desonestidade no Estado brasileiro.

A cobertura sobre os "vampiros" e sobre os "sanguessugas", por exemplo, teve como alvo crítico o atual governo e não o anterior, período em que as situações de ilegalidade nasceram e se abasteceram. A cobertura da ação dos “aloprados”, outro exemplo, foi deliberadamente formatada para bombardear a campanha de Lula, oportunizada pela conduta ilegal e amoral de pessoas que o apoiavam. Deixo de lado aqui (e desclassifico), as acusações apaixonadas e iradas - de ambas as partes - que rolam pela internet, tanto a respeito de Lula e do PT, como a respeito da própria imprensa.

Para que não se pense que estou tratando de vitimizar o PT, quero deixar claro, em primeiro lugar, que conseguimos equilibrar as versões - como comprova a votação nacional do Partido e a vitória de Lula. Isso foi conseguido a despeito da massiva campanha, primeiro contra o PT, depois também contra Lula. Aos espaços “concedidos” pela própria mídia, somaram-se os programas eleitorais e, principalmente, os meios alternativos de comunicação através da internet. Em segundo lugar, entendo que a posição majoritária da grande imprensa contra Lula e o PT não é originária de qualquer "conspiração" ou má vontade contra a "origem operária" do Presidente, ou por sua "falta de formação acadêmica". Preconceito é o nome de fantasia dos interesses políticos.

Trata-se, na verdade, de uma divergência programática e ideológica da mídia, a respeito de como devem ser abordados os grandes problemas nacionais, quais as prioridades neste período controverso de formação da nação. Mas, sobretudo, são divergências sobre o alcance e o grau de aplicabilidade que devem ter, no país, as "reformas” propostas pelo ideário neoliberal: como e quem "paga a conta" para retirar o país da semi-estagnação e da desigualdade social aguda, situação estrutural que foi legada pela nossa história recente.
Durante a campanha feita contra o PT e Lula, neste primeiro mandato, transitaram algumas "teses" que impediam qualquer direito a dúvidas: cada acusação, de qualquer fonte, era considerada verdadeira e o acusado, ou acusados, é que deveriam provar sua inocência: a) O PT instaurou a corrupção estrutural no Estado brasileiro; b) é impossível o Presidente não ser conivente; c) o que tem de bom, no atual governo, veio do governo FHC; d) as coisas que Lula fez corretamente, fez "contra" o PT; e) a política econômica era a guardiã da estabilidade, a despeito da vocação populista de Lula; f) e a mais grave das acusações, subjacente e ardilosamente trabalhada por inúmeros colunistas e em grande parte das notícias sobre corrupção: o petismo, como comunidade indeterminada é, em si mesmo, um movimento de criminosos. Ou seja, a "grande mídia" deu vezo e espaço às teses mais radicais e extremas da oposição. Num certo momento, ela conseguiu fixar nossa imagem junto à ampla maioria da população, de molde a que nós do PT - independentemente da nossa relação com os fatos criticados - passássemos a ser suspeitos só pelo fato de sermos petistas ou simpatizantes.
A esta incriminação em grupo, que pretendia impor uma dialética decisionista para atingir em cheio uma comunidade indeterminada - na melhor versão do teórico Carl Schmitt, que namorou o nazismo - é que chamei de "método fascista". Desataram contra nós uma “caça” indiscriminada, de forma indistinta e inclusive com a colaboração raivosa da "ultra-esquerda". Esta, depois de ser incensada pela mídia, passou a ser desclassificada pela mesma mídia, quando essa percebeu que a candidata do PSol tirava votos de Alckmin, não de Lula. A campanha desatada, se surtisse efeito, devastaria a esquerda como perspectiva democrática de médio ou longo prazo para o país. A “raça” seria extinta. A meta era eliminar a esquerda politicamente, e para isso seria necessário também liquidar Lula.
Este tipo de procedimento da direita não é nem novo nem é considerado ilegítimo no sistema democrático. Não só porque não avança sobre os limites do sistema jurídico-moral vigente, mas também porque a própria esquerda não é estranha a tais métodos. Mas, reconheça-se, ela não tem capacidade real de fazer refletir de forma significativa na mídia o seu extremo oposicionista. Por dois motivos: primeiro, porque o projeto de sociedade da esquerda é rejeitado por aqueles que controlam os grandes meios de comunicação. Aliás, um direito constitucional assegurado a estes setores dominantes, o que implica em um certo controle da divulgação e na reprodução da opinião; segundo, porque o mercado editorial informativo hoje demanda, para a defesa desta hegemonia, outro tipo de "formadores de opinião". São aqueles especializados não no velho combate ao "comunismo", mas no combate ao ideário "antineoliberal". Nunca na defesa de um projeto social-democrata ou socialista.
Nesta etapa da demanda de "formadores de opinião" pela grande imprensa, ou o intelectual de esquerda se adapta, ou só freqüenta as "grandes páginas" muito eventualmente. Daí a esquerda não ter condições de competir naquilo que foi feito contra ela, nos dois anos finais do governo Lula: não só no terreno das respostas, enquanto governo, como também enquanto agressividade oposicionista, passada ou futura.
Estes especialistas devem ter um pouco de prestígio acadêmico, informação geral rápida (não necessariamente cultura geral), de preferência com um passado esquerdista, para serem supostamente capazes de substituir os grandes tribunos ou publicistas do anticomunismo. Mas, sobretudo, devem ser fiéis à compreensão de que o Estado é um entrave ao desenvolvimento capitalista e o verdadeiro "mercado" - fonte hegemônica da inspiração das suas receitas políticas - são os analistas de risco e as agências financeiras privadas. Mesmo sem a solidez daqueles ideólogos da estatura de um Lacerda, devem, pelo menos, ter uma agressividade e ironia pós-modernas, pelas quais a força dos argumentos é substituída pelo anátema, e a solidez das opiniões é sustentada pelo bloqueio ou pela negação ao direito de resposta.
Por que referi ao conto de Grass? Passadas 48 horas das eleições, a máquina da “grande imprensa” passou a trabalhar uma inversão. Antes, buscou o segundo turno e militou pela eleição de Alckmin, embora sem assumir claramente tal posição perante o leitor. Depois, ao invés de fazer uma mínima reflexão sobre o seu papel no processo eleitoral, grande parte dos articulistas passou a defender a "liberdade de imprensa", que estaria sendo atacada pelo PT. Como? Ora, o Presidente do PT, Marco Aurélio Garcia, propôs uma "reflexão" para a mídia. Ao mesmo tempo, a “grande imprensa” passou a sofrer ataques (racionais e irracionais) pelos meios alternativos de intercâmbio de opinião e informação.
Tal fato seria uma "ameaça" à liberdade de imprensa, pelo "totalitarismo petista": ou seja, o PT não só não deveria sair do campo de concentração informativo a que foi submetido, como também não deveria sequer falar do tratamento que recebeu. Não poderia nem vibrar com a vitória de Jesse Owens, nem se indignar com a vedação da palavra decidida pelos guardas. No caso, para discutir não a "liberdade de imprensa", mas para debater o eventual direito de fazer circular as opiniões e informações de maneira equânime, direito esse sufocado pelas deformações manipulatórias de caráter eleitoral, que visavam às vezes derrubar o Presidente ou, pelo menos, derrotá-lo eleitoralmente.
Qualquer argumentação ou qualquer ressalva contra a forma com que fomos tratados no processo eleitoral, automaticamente já suscita uma enxurrada de acusações de que estamos tentando cercear a "liberdade de opinião", ou estamos "atacando a mídia". A própria resposta à nossa sugestão de autocrítica já é uma nova desinformação à sociedade: somos acusados de atacar não as deformações informativas, ou a falta de objetividade que acompanhou a cobertura dos escândalos - verdadeiros, fictícios ou superestimados - no centro da crise política que o país viveu. Somos acusados é de atacar o próprio direito das pessoas expressarem suas opiniões.
A impressão que fica é que não querem, na verdade, analisar os motivos da sua derrota, já que tinham festejado, prematuramente, "que o governo Lula estava terminado" e que o PT estava "completamente morto". Supunham que a esquerda - com seus méritos e deméritos, grandezas e misérias - estava eliminada do panorama político do país. Pensavam que as centenas de ofensas pessoais dirigidas ao Presidente e, ao lado das verdades, as infâmias assacadas contra o PT, seriam obrigatoriamente acolhidas por uma sociedade passiva e sem capacidade de juízo crítico.
Devemos, sim, avançar tranqüilamente e sem sectarizações - como ocorre atualmente nas democracias consolidadas- numa discussão não sobre a "liberdade de imprensa", que já está assegurada na Constituição e não deve ser tocada. Mas num debate sobre como ampliar a liberdade de imprensa, tomada também como direito das pessoas e instituições da sociedade poderem fazer circular as suas opiniões e informações de maneira mais equânime.
Isto é importante para todos os setores da sociedade e todos os agrupamentos políticos, sejam eles minorias - como pensavam, até a pouco, que tínhamos nos tornado - seja para as maiorias sociais e políticas que tenham pouca potência informativa para divulgar as suas idéias e versões. Isso se chama, no bom sentido, de "ir às raízes", "radicalizar a democracia", ampliando o espaço para os grandes debates nacionais e pluralizando a formação do juízo popular, nos últimos anos sufocado pela indigestão histórica do “caminho único”.

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