20/11/2006 09:03
Mais além do populismo
FOLHA DE SÃO PAULO
Domingo, 19 de novembro de 2006
TENDÊNCIAS/DEBATES
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Ao contrário do que recomenda o populismo, Lula e o PT promoveram a incorporação dos "de baixo" na democracia


O RESULTADO do processo eleitoral no segundo turno das eleições, no qual o presidente Lula obteve 61% dos votos, e o seu adversário, menos votos do que no primeiro turno, enseja uma reflexão mais além dos efeitos que advirão dos próximos quatro anos. Trata-se do tema da integração socioeconômica e política do país como provável "comunidade de destino" (nação), já referida por Caio Prado Junior e por Florestan Fernandes.
Longe de uma "conspiração", o apoio que a maior parte da imprensa deu ao candidato da assim chamada "elite paulista", na verdade, revelou o débil estágio de integração sociopolítica do país. E ainda um descolamento da parte mais avançada do capitalismo brasileiro do resto do Brasil.
Descolamento político, de uma parte, porque o seu candidato não conseguiu, a partir de São Paulo, falar para o país. Descolamento econômico, de outra parte, porque a sua visão de mercado está mais balizada pelos consultores de risco das agências privadas do que orientada pela necessidade de expansão do mercado capitalista "clássico", produtor de bens de consumo de massas, no caso do Brasil, de educação, de comida e de roupa decente para todos.
Ao longo deste ano, sustentei que não mais seriam aplicáveis, no Brasil, os critérios de análise do mercado financeiro para orientar o eleitorado por dois motivos fundamentais.
Primeiro: embora os "analistas de risco", como é seu dever profissional, queiram sempre transitar os interesses de seus clientes, o mercado financeiro concreto se move balizado pela "segurança". Comparativamente aos países emergentes, o Brasil conquistou a condição de país "seguro".
Segundo: a política externa brasileira soube nos colocar numa relação privilegiada, inclusive com capacidade de dialogar lealmente com os EUA de Bush, sem provocações e sem humilhações, o que tornou desinteressante, para o império, qualquer tentativa de desestabilização do Brasil.
Onde está, então, o descolamento?
A tese do "choque de gestão" não tem significado em dois terços do país, onde a máquina pública ainda não exerceu, para as grandes massas, as funções públicas mais elementares. A tese de que o governo Lula era "corrupto" se chocou com a realidade do combate frontal à corrupção pelo próprio governo. A tese da "incompetência" do presidente se esfarelou no cotidiano dos "de baixo", que melhoraram um pouco a sua vida, mas cuja melhora foi sentida numa escala sem precedentes, dentro da democracia.
É também um equívoco político e conceitual classificar a vitória de Lula como uma vitória do populismo. Não só porque os movimentos sociais não estão "enquadrados" pelo Estado ou pela figura pessoal do presidente mas também porque, em nenhum momento, a sua campanha mobilizou massas organizadas ou informes contra "os ricos".
Ao contrário, quem tentou formar um espírito de corpo irracional e odioso contra Lula e o PT a partir das inseguranças e do moralismo das classes médias, altas e remediadas foram os setores mais direitistas do campo adversário.
O populismo não incorpora as massas populares no jogo democrático, volta-as contra as instituições formais do Estado. E, ao contrário do que recomenda o populismo, Lula e o PT promoveram a incorporação dos "de baixo" na democracia para promover a integração social do país por meio de um grande mercado de massas. Um mercado no qual o consumo popular ascendente ajude a eliminar a exclusão e a miséria e permita que todos se sintam pertencentes a um projeto democrático de nação.
Mais além do populismo, mas também mais além da "utopia" de direita do já velho neoliberalismo.
Agora, trata-se de criar condições para responder ao "déficit" de integração nacional que foi flagrado na maciça preferência que as regiões mais pobres do Brasil tiveram em relação à candidatura Lula, apesar da boa votação de Lula obtida no segundo turno nos Estados do Sul.
As políticas de inclusão no consumo básico e na educação devem ser somadas a grandes políticas de desenvolvimento regional, promovidas pelo Estado como indutor e organizador do crescimento sustentável.



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TARSO FERNANDO HERZ GENRO , 59, advogado, é ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. Foi ministro da Educação (2004-2005), ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (2003-2004) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-96 e 2001-02). É autor de "Utopia Possível" (Artes e Ofícios), entre outros livros.



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