19/10/2006 09:36
Moral e política na sociedade em movimento
Jornal VALOR ECONÔMICO, pág. 14A
18/10/2006



Nos dois extremos da concepção sobre ética, na sua expressão como "moral"
moderna, estão duas posições assim ilustradas: uma parte importante da
intelectualidade comunista sempre separou a moral "deles" e a "nossa",
referindo-se às "classes dominantes" e às "classes dominadas"; uma parte da
direita através do nazi-fascismo defendeu - inclusive inspirando enunciados
de filosofia do Direito - que o "justo" que dava significado à moralidade
(não somente à moralidade pública) derivava da idéia de nação pura. Esta
teria a sua Constituição política na síntese feita do condutor do Estado: o
"Führer".

A primeira idéia de moral é capaz de justificar o fuzilamento dos filhos do
czar para que o futuro da revolução seja "purificado". A segunda idéia de
moral é capaz de "purificar" a nação através de políticas de Estado que
levam às câmaras de gás. Ambas defendem a "pureza", seja da política
revolucionária, seja do Estado, para justificar os seus fins. Quem defende
que a política pode ser absolutamente "pura", seja de direita, ou de
esquerda, na verdade pretende separar-se da condição humana para abrigar-se
na opacidade de uma condição não-humana, a quem compete fazer juízos
absolutos.

Não se trata, aqui, de equiparar as duas tendências: a que sufocou as
liberdades e fundou o totalitarismo vermelho (mas também produziu humanismo e democracia) e, de outra parte, aquela inspiradora do nazismo e do
Holocausto. Trata-se, apenas, de lembrar duas posições que, por conexões
lógicas arbitrárias, abrigam-se nos mesmos referenciais éticos.

O primeiro argumento é de natureza "classista" e impõe um determinado senso
de "justiça" e do "bem", a partir dos interesses das classes em confronto. O
segundo argumento repousa no Estado como condensação da política, através do qual (por vínculos burocráticos) instaura-se a fidelidade a um sentido do
"bem comum". Ambos os argumentos dispensam a política para legitimar-se e
escoram-se numa alegada pureza dos fins.

Na reflexão sobre o tema é preciso separar (para depois reunir), ética e
moral. Ética, como conjunto de princípios universais originários da "práxis"
("o sujeito afasta as barreiras da naturalidade" e cresce o seu controle do
mundo exterior); e moral, como código destes princípios, que pode
justificar-se no cotidiano, seja pelo discurso, seja pelo Direito.

Assim, um princípio ético é "não utilizar o outro como instrumento" (Kant);
e um mandamento moral, numa sociedade dada pode ser: "não ser proprietário
de mais de quatro mulheres". A moral, portanto, apreende de forma peculiar,
na sociedade concreta, os princípios éticos como consciência na atualidade.
O padrão de moralidade no Ocidente é racionalizado através de
aparatos do Estado, por pessoas capazes de criar consenso.

Os padrões de moralidade na sociedade ocidental moderna são racionalizados
através de certos aparatos do Estado, pelas pessoas e grupos que têm maior
capacidade de criar e manipular consensos. O exercício destas capacidades
não pressupõe, porém, a dispensa da fundamentação para impor determinados
comportamentos nem supõe que aqueles padrões morais sejam "opressivos". O
próprio sentimento de opressão é concebido comparando-o com uma situação
mais opressiva no passado, ou quando ele é uma consciência antecipada, logo
um "ideal".

Só através da política, como práxis na ação pública, a moral expressa a
ética para "este tempo" (ex: não usar o outro como instrumento) como vida
social dos humanos. Ela permite, por exemplo, que se considere "moral" (em
sociedades diferentes) tanto "não usar o outro como instrumento" como a
poligamia limitada. Quando alguém defende, portanto, que a política jamais
pode ser concebida como uma conduta ética absoluta não está sustentando,
necessariamente, que ela pode ou deve ser "imoral". O que pode estar dizendo
é que a política é aética, na exata medida daquilo que é permitido pelo
Direito do Estado. Fazer o despejo de um inquilino miserável é "aético",
pois o outro foi usado só como instrumento de renda. Contudo, o ato judicial
de despejo não é imoral: a possibilidade está codificada no Direito e é
aceita, tanto pelo senso comum, como pelo bom senso.

O reconhecimento desta "separação" entre ética e política, todavia, é que
permite pensar as formas institucionais e os procedimentos mais adequados
para aproximar a ética da política, através da construção da nova moralidade
pública. Esta só é realizável através dos costumes e da lei. A aproximação
só é factível, portanto, se os princípios (da ética) são vistos como fora do
tempo atual e aceitos como informadores das condutas individuais: aquilo que
"informa" só pode vir de "fora" do cotidiano já prescrito.

O pragmatismo é um elemento essencial da política e ele só é deformante
quando se torna um fim em si mesmo. Só a partir da "separação" (entre ética
e política) é que o sujeito pode adquirir consciência para derrotar o
pragmatismo, que estará sempre presente. Ele é que permite a sobrevivência
dos indivíduos na esfera da política. Reconhecer, portanto, que a política é
o reino da intransparência é condição para que o sujeito trabalhe para que
ela seja menos intransparente. Por quê? Porque só a consciência da
intransparência é que permite "mediações", formas deliberadas de
relacionamento entre os homens, para um certo compartilhamento social.
O regime democrático é sempre mais ou menos opaco, mais ou menos
transparente. E só é democrático porque fica obrigado a abrir-se, na
separação das suas duas esferas. A esfera pública e a esfera privada que
separam-se a partir da lei: a lei legítima é a mediação da política, sempre
pensada antes, embora sempre desatualizada. Assim, a intransparência do
Estado e da política modernas constituem a essência da democracia, pois a
opacidade é que faz exigir mais transparência contratada através da nova
lei.

Só a monarquia absoluta pode ser, se quiser o monarca, absolutamente
transparente. Ele não necessita prestar contas a ninguém fora de si mesma.
Só o totalitarismo pode ser totalmente opaco, pois ele tem a força absoluta
para, se quiser, não deixar ver-se no espaço público. Só a democracia muda a
si mesma para mais transparência e moralidades superiores nunca completadas.

(Tarso Genro é ministro das Relações Institucionais.)


| enviar para amigo | Imprimir página atual | Topo da Página |


MENSAGEM AO 4º CONGRESSO NACIONAL DO PT enviado em 19/02/2010 18:24

CONSTITUIÇÃO SOCIAL E DIREITOS EFETIVOS enviado em 02/01/2010 13:49

MARXISMO, RELAÇÃO DE TRABALHO E DIREITO SUBJETIVO* enviado em 04/01/2010 13:26

O Fórum Social Mundial e a esquerda dez anos depois enviado em 03/02/2010 13:35

O Poder Judiciário na Sociedade Democrática Moderna enviado em 26/01/2010 10:51

CARTA MAIOR enviado em 30/11/2009 13:31

Da Avenida Paulista aos ianomâmis enviado em 02/10/2009 15:48

Mais além de janeiro enviado em 18/09/2009 09:34

Teoria da Democracia e Justiça de Transição enviado em 09/09/2009 15:48

Memória Histórica, Justiça de Transição e Democracia sem fim enviado em 14/05/2009 17:59

A Crise Global e o Estado de Segurança enviado em 14/05/2009 17:55

Em 15 de abril de 2009 enviado em 07/05/2009 14:39

RELATÓRIO enviado em 19/01/2009 16:26

Fala D'Alema enviado em 04/01/2009 13:48

Entrevista com Tarso Genro. enviado em 14/01/2009 13:41

CONSTITUIÇÃO SOCIAL E DIREITOS EFETIVOS enviado em 24/11/2008 14:04

Discurso do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama enviado em 07/11/2008 13:59

DISCURSO PANEGÍRICO enviado em 07/11/2008 13:57

MÉTODO E CONSTITUIÇÃO DIRIGENTE enviado em 03/11/2008 11:33

Milícias e Estado de Direito enviado em 30/06/2008 17:13

O Brasil da mídia e o Brasil real enviado em 03/04/2008 16:49

O Leninismo como raiz da crise socialista* enviado em 27/03/2008 17:33

São Paulo, domingo, 09 de março de 2008 enviado em 12/03/2008 13:34

DEMOCRACIA, SOCIEDADE E SUSTENTABILIDADE enviado em 07/02/2008 10:15

Carl-Herz-Ufer enviado em 29/01/2008 13:02

Segurança política e Direitos Humanos enviado em 18/01/2008 10:58

CRIAÇÃO DOS CURSOS JURÍDICOS NO BRASIL enviado em 10/08/2007 13:36

“REFORMA POLÍTICA É PROCESSO, NÃO ATO ISOLADO” enviado em 11/07/2007 09:56

A dispersão das ideologias enviado em 15/01/2007 13:41

Governo de Coalizão enviado em 15/12/2006 15:55

Uma lembrança por Günter Grass enviado em 15/12/2006 15:47

Mais além do populismo enviado em 20/11/2006 09:03

Moral e política na sociedade em movimento enviado em 19/10/2006 09:36

INSTABILIDADE E GOLPISMO enviado em 28/09/2006 16:03

ELEIÇÕES 2006 enviado em 26/09/2006 17:06

O FIM DA POLÍTICA enviado em 04/09/2006 10:31

A questão democrática como questão da esquerda enviado em 23/08/2006 10:01

EDUCAÇÃO enviado em 15/08/2006 15:09

REFORMA E PODER CONSTITUINTE enviado em 09/08/2006 14:38

VIA POLÍTICA enviado em 27/07/2006 14:10

Concertando a reforma enviado em 13/06/2006 10:36

Introdução à Reforma enviado em 06/06/2006 16:02

UNIVERSIDADE, COOPERAÇÃO INTERNACIONAL E DIVERSIDADE enviado em 24/05/2006 08:30

Ensaio para abril enviado em 05/04/2006 11:08

Sobre o entendimento enviado em 14/03/2006 15:39

Por que não sou candidato enviado em 07/02/2006 16:28

Os conteúdos da Revolução Democrática enviado em 31/01/2006 11:43

É possível combinar democracia e socialismo? enviado em 09/01/2006 11:47

Lula pode ganhar enviado em 29/12/2005 08:19

A crise política na revolução democrática enviado em 08/12/2005 15:38

O retorno da utopia enviado em 14/10/2005 10:12

NOTAS SOBRE UMA NOVA ETAPA NA POLÍTICA ECONÔMICA SOB enviado em 21/11/2005 10:07

O PT em seu labirinto enviado em 02/09/2005 15:30

Além do Fato: De Borges e do PT enviado em 27/09/2005 15:25

O PT, ele mesmo, como crise enviado em 08/07/2005 11:37

PALÁCIO DO PLANALTO enviado em 14/06/2005 11:21

Falsa polêmica enviado em 30/05/2005 11:18

Zero Hora - 28/04/2005 enviado em 28/04/2005 16:26

São Paulo, quarta-feira, 27 de abril de 2005 enviado em 27/04/2005 11:28

Passada a artilharia enviado em 03/03/2005 10:28

A FAVOR DA ELITE PLURAL enviado em 28/02/2005 15:16

Fazendo a reforma que precisa ser feita enviado em 11/02/2005 16:27

As raízes da crise na educação básica enviado em 18/01/2005 10:13

Orientando o preconceito enviado em 14/01/2005 15:56

Crise do Estado como crise política enviado em 13/01/2005 09:03

UNIVERSIDADE E NAÇÃO enviado em 04/01/2005 11:22

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL ZERO HORA - 03/01/2005 enviado em 03/01/2005 10:41

PT saiu derrotado destas eleições? enviado em 09/11/2004 10:47

Choques e voluntarismo enviado em 20/10/2004 08:41

A esquerda depois de Blair enviado em 16/06/2004 15:06

Educação e transição enviado em 27/07/2004 10:54

ESQUERDA E SEGURANÇA NA AVENTURA DA MUDANÇA enviado em 01/06/2004 13:59

Elitismo e esquerdismo enviado em 24/05/2004 16:55

Universidade para todos enviado em 17/05/2004 15:36

Entrevista enviado em 14/05/2004 16:24

Uma outra lição espanhola enviado em 07/05/2004 11:00

TEORIA CRÍTICA DA AUTOCOMPOSIÇÃO* enviado em 26/12/1991 10:40

Natureza jurídica do Direito do Trabalho enviado em 26/04/1991 10:28

CONTRIBUIÇÃO AO DEBATE SOCIALISTA* enviado em 04/08/2001 13:41

QUINZE PONTOS PARA UMA PERSPECTIVA ESTRATÉGICA DE CENTRO-ESQUERDA PARA O GOVERNO LULA enviado em 15/12/2003 13:05

GLOSSÁRIO PARA UMA “ESQUERDA DEMOCRÁTICA” (NO GOVERNO E FORA DELE)* enviado em 15/10/2003 12:04

FUNDAMENTOS PARA UM PROJETO DE INSTITUIÇÕES POLÍTICAS NO SOCIALISMO* enviado em 15/03/2001 12:55

Cotas, Direito e Democracia enviado em 12/04/2004 12:09

Reforma Universitária enviado em 25/03/2004 10:26

AULA MAGNA enviado em 22/03/2004 14:36

Kelsen e Renner conversam com Norberto Bobbio enviado em 17/02/2004 15:27

O governo Lula e a conciliação das elites enviado em 18/01/2004 15:16

Ética pública e elogio da serenidade enviado em 29/02/2004 14:49

Democratismo Globalitário enviado em 24/09/1990 04:24

Esquerdismo e Neoliberalismo enviado em 20/01/2002 00:37

Chávez e Lula enviado em 17/09/2003 00:26

Outras Lições Espanholas enviado em 29/05/2003 00:23

Utopia e Realismo na Esquerda enviado em 13/04/2003 00:21

O governo Lula e os novos especialistas enviado em 24/12/2003 00:03

Nem tão distante nem tão impossível enviado em 16/11/2003 23:57

O Mundo Respira no Fórum Social Mundial enviado em 04/02/2002 23:54

Esquerda em processo enviado em 18/05/2003 23:50

As Premissas da Concertação enviado em 28/09/2003 23:47

Socialismo e governo Lula enviado em 06/08/2003 23:43

Atravessar os limites enviado em 23/12/2003 23:40

A Dinâmica dos Conflitos enviado em 25/02/2001 17:59