05/04/2006 11:08
Ensaio para abril
FOLHA DE SÃO PAULO - São Paulo, sexta-feira, 31 de março de 2006
TENDÊNCIAS/DEBATES
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A esquerda que apóia Lula vai compreender que o argumento "moralista" é só ataque político. Não há interesse ético em jogo
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"Abril é o mais cruel dos meses." O verso de T.S. Elliot poderia ser a metáfora de uma crise, mas também pode ser tomado como desafio a ser vencido. Tempo histórico no qual a esquerda que apóia o governo Lula vai enfrentar os seus fantasmas. E, assim, compreender que, no cerco ao seu governo, o argumento "moralista" é só ataque político. Não há interesse ético em jogo. O objetivo é desconstituir o PT e Lula para "absolver" o projeto de Fernando Henrique Cardoso.
Basta lembrar, por exemplo, que nenhuma acusação até agora foi tão grave quanto as três que ainda pairam -sem resposta- contra FHC: uma reforma constitucional "comprada" para possibilitar a reeleição, que mancharia de legitimidade todo o seu segundo mandato; a fraude do Plano Real e a conseqüente estafa cambial, que arrasaram a economia; as acusações gravíssimas e gravadas de corrupção nas privatizações, que a direita impediu de investigar, certamente não sem motivos.
Não discuto aqui se as acusações contra os governos FHC e Lula são verdadeiras ou não, porque tanto o contencioso judicial como o contencioso político, ao final, têm uma síntese (verdade "ficta") que apenas se aproxima da verdade concreta, que nunca será totalmente conhecida.
A democracia reforça-se exatamente por esta experiência complexa. É demorada e cansativa, mas a sua maioridade é fundada no consenso de que ela não pode ser interrompida. Melhor assim do que o túmulo do silêncio na ditadura.
Na justificação da ditadura está sempre o pragmatismo da "rapidez" para obter a "prova". Na rapidez para obter a prova, está sempre a "confissão". Na confissão do acusado está sempre um meio medieval de obtenção da "verdade", que é a tortura.
Esse é o "ovo da serpente" da cultura do fascismo, que não só tenta, sem nenhum critério técnico, destruir moralmente os adversários e desautorizar os órgãos formais da Justiça e do Parlamento como também busca desmoralizar a política em geral, propagando que ela é impotente e falsa.
Se o verdadeiro debate, hoje, fosse sobre moral pública, os escoteiros da virtude cívica já teriam lançado contra os governos FHC pelo menos o dobro da agressividade que têm contra Lula e o PT. Mas ver alguns defendendo a honradez e constatar o cinismo que eles exalam não deixa de ser educativo.
Dada a reconhecida moderação do governo Lula, não está em jogo certamente uma ruptura com os padrões de acumulação vigentes globalmente.
O que está em jogo é se avançaremos um pouco mais na democracia, promovendo um pouco mais de coesão social. O que está em jogo é se alguns recursos públicos continuarão a ser direcionados para os pobres, se os financiamentos do Estado continuarão chegando até os "pequenos". Se os movimentos sociais serão criminalizados ou se as reformas de FHC serão retomadas.
Parece pouco, mas é muito, pois, num segundo governo Lula, se abrirão mais espaços para uma verdadeira "constitucionalização" do desenvolvimento que, em regra, tem promovido é o "apartheid" social.
A indicação de Geraldo Alckmin como candidato do PSDB e a sua manifestação no sentido de que pretende retomar as "reformas" de Fernando Henrique, bem como o seu apelo aos jargões da direita fundamentalista -que lembra o extremismo religioso de seitas americanas- mostram que o contencioso é muito mais complexo do que o "apreço" à moralidade.
Os avanços que o Brasil teve, da Revolução de 30 até hoje -com todas as mazelas que as lideranças populares carregam consigo-, vieram da era Vargas. Vieram da era JK. Vieram das lutas pelas reformas no governo Goulart (que não caiu pelos seus defeitos, mas pelas suas virtudes). Vieram, também, de alguns projetos em defesa da soberania na época do regime militar -embora em nenhuma hipótese justifiquem aquele regime.
Como em todos os grupos humanos, nas elites da oposição convivem pessoas "boas" e "más", honestas e desonestas. As reformas, porém, de que o país precisa não são aquelas que Fernando Henrique implementou em seu nome, mas também são muito diferentes das da época do varguismo.
Na época de Vargas, o problema era regular e proteger a vida dos incluídos pela industrialização nascente. Hoje, o problema é promover a inclusão maciça de milhões num "novo contrato social", com políticas que promovam a integração das pessoas na sociedade de classes do terceiro milênio. Só a inclusão maciça é capaz de combater o "tatcherismo" caboclo; o resto é retórica.
O esvaziamento de um novo avanço democrático pode permitir que a elite tucano-pefelista cumpra o seu programa de inserir apenas "um terço" dos brasileiros no consumo acelerado da pós-modernidade. Mas o regresso ao passado, de privatizações selvagens e juros altos, inflação alta e aumento galopante da dívida pública -as heranças mais contundentes de FHC-, certamente fará o país retornar à subserviência na globalização. Num lugar mais próximo do desastre.



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Tarso Genro, 58, advogado, foi presidente interino do PT (julho a outubro de 2005), ministro da Educação (2004-2005), ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2003-2004) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-96 e 2001-02). É autor de "Utopia Possível" (Artes e Ofícios), entre outros livros.



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