A aliança tucano-pefelista -os contratadores dos 15 bilhões de dólares que eram devidos ao FMI, os anônimos compradores de votos para a reeleição, os não-investigáveis porque já "são história", os imaculados que viram o PT começar a corrupção no Brasil, os pioneiros do esquema dos Correios-, todos os que dela fazem parte comemoram as pesquisas recentemente publicadas. Segundo eles, Lula vai perder. É cedo para comemorar.
Depois de meses de uma massacrante campanha majoritária na mídia, a grande parte dos órgãos de imprensa também vibrou. No curso dessa campanha, várias lideranças do PT foram consideradas culpadas e executadas moralmente antes de apresentarem qualquer defesa. O presidente, porém, não renunciou nem se suicidou.
O governo Lula -muito melhor que os dois governos de FHC- não é o governo almejado pelos petistas nem pelo próprio presidente. Uma política de alianças debilitada, os erros da direção política do governo e do PT no "caso Waldomiro", os procedimentos ilegais de dirigentes e as concessões que fizemos à banca internacional com uma política de juros ascendentes -necessária no começo e abusiva um ano depois- causaram uma grande crise.
Essa crise decorreu não só da nossa gestão política inicial mas também de uma execução orçamentária fortemente restritiva, que reduziu investimentos e, às vezes, congelou a máquina pública. Esses fatores também friccionaram a relação do governo com sua base social popular, com o setor produtivo e com as classes médias esclarecidas.
A oposição, por mais pesada que tenha sido, agiu dentro das regras. Logo, o que proponho aqui é uma questão de mérito, e não uma questão sobre se ela tinha (ou não) direito de fazer o que fez. A saber, indago: a radicalização que a oposição proporcionou interessava ao país ou a crise foi instrumentalizada como arma de combate eleitoral antecipado? Adoto a segunda hipótese e defendo que essa é a grande questão política do momento, de cujo debate advirá uma nova correlação de forças.
Sustento que, embora a intenção "saneadora" estivesse presente em cabeças da oposição e mesmo em parte da grande imprensa (que é predominantemente apoiadora do PSDB ou do PFL), o movimento praticado pela oposição, estabelecido durante as investigações, deformou seu sentido inicial. Os objetos "luta contra a corrupção" e "saneamento das deformações institucionais" cederam à tentação de criminalizar o PT e liquidar politicamente o presidente.
O que restou foi a transformação da política oposicionista num gigantesco macartismo moralista, pois o processo inquisitório recuou nos momentos-chave. Quando chegavam perto do sistema, dos financiadores, das origens e das épocas em que esse processo enquistou-se no Estado brasileiro, as investigações viraram um leque irracional de interrogatórios dispersos, não em busca da verdade, mas do fato que mais servisse à disputa "denuncista". Tal processo ainda ajuda a composição da "pizza": a punidade seletiva e a manutenção da impunidade generalizada.
Quando, no debate eleitoral, teremos a oportunidade de cotejar números e éticas? Quem criou mais empregos? Quem fundou uma controladoria altamente operante? Quem reduziu ou aumentou o percentual da dívida pública em relação ao PIB? Quem tratou de maneira mais correta e republicana os movimentos sociais, sejam eles de empresários ou de trabalhadores? Quem efetivamente melhorou o salário mínimo? Quem ensejou que a Polícia Federal combatesse com mais força o crime organizado? Quem fez mais transferência de renda direta para os pobres? Quem fundou mais universidades, colocou mais alunos no ensino superior e outorgou mais verbas para a educação? Quem orientou a economia para o crescimento e quem a orientou para a estagnação? E, para completar, poderemos discutir quem inventou o sistema Marcos Valério e desde quando ele operava.
Na medida em que passarmos a indicar de forma clara (após nossa liberação da tutela do FMI) as políticas de "transição" para um modelo de altas taxas de crescimento, mais justo e distributivo, a disputa política não ficará mais entre os que se "iludiram" com o PT e os donos da ética nacional. Nos debates eleitorais não aparecerão nossos erros em todas as primeiras páginas e nossas virtudes em notas de pé de página.
Os elementos concretos para uma mudança progressiva nas políticas que influem diretamente no desenvolvimento e na distribuição de renda estão dados. Agora, só depende do presidente: depois de nos livrar do FMI, combinar a boa técnica para uma política de juros adequada às taxas praticadas no mundo, manejo orçamentário ágil e responsável (e corajoso) e um superávit primário que mantenha a confiança dos credores e, ao mesmo tempo, faça renascer a confiança interna.
A superação dos grandes ódios e preconceitos que os erros do Partido dos Trabalhadores fizeram emergir também é um elemento da revolução democrática no país. Afinal, ela, ainda incompleta, é de fonte muito mais ampla do que o PT, mas que tem no PT e em Lula uma referência decisiva.
Lula pode ganhar.
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Tarso Genro, 58, advogado, foi presidente interino do PT (julho a outubro de 2005), ministro da Educação (2004-2005), ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2003-2004) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-96 e 2001-02). É autor de "Utopia Possível" (Artes e Ofícios), entre outros livros.
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