O resultado das eleições internas no PT ofereceu dois indicativos claros a respeito do nosso futuro: primeiro, a idéia de uma esquerda socialista democrática no Brasil, que tem no nosso partido um dos principais referenciais, não foi arquivada pela crise; segundo, a nossa militância, com os resultados da eleição — ainda que os nossos militantes tenham mandado um recado político claro aos seus dirigentes — está disposta a “refundar” ou reconstruir o PT. Na conjuntura histórica de desmanche das utopias não foi somente a idéia do socialismo que entrou em crise, pela “queda” do Leste e pela impotência da social democracia clássica. Também a idéia de democracia ficou congelada pela impossibilidade, até agora flagrante, de integrá-la de forma concreta — principalmente nos países que estão fora do centro orgânico do capitalismo global — com a idéia de justiça social e de redução das desigualdades. Esta integração, porém, é a única saída para enfrentar o vazio de perspectivas da esquerda, no interior da crise civilizatória originária do capitalismo do “keynesianismo militar”, que tem na guerra de ocupação o principal meio de dominação. A conexão da idéia do socialismo com a idéia da democracia não meramente “classista”, mas republicana e salvaguardada pela Constituição democrática, não só não é nova, mas também se encontra num momento de moratória consciente. Habermas, com a sua tese do “socialismo como idéia reguladora”, Boaventura Sousa Santos, com a sua rica formulação do “socialismo como democracia sem fim”, e Carlos Nelson Coutinho, com sua visão da “democracia como valor universal”, por dentro da qual deveria (deverá?) transitar a reforma socializante — estes autores têm em comum o reconhecimento da impotência das idéias clássicas de revolução: a impotência das fórmulas tradicionais, adotadas pelas teorias marxistas-soviéticas, originárias das revoluções e golpes de esquerda do século passado. Não concordo com a tese de que todas as utopias são autoritárias ou totalitárias. Nem pela autoridade política de quem defende tais posições, nem pela sua fundamentação teórica, de resto sustentada por intelectuais respeitáveis e reconhecidamente democráticos, como também por reconhecidos conservadores de formação autoritária. Defender uma “utopia realista” naquele sentido emprestado ao termo por Bloch, reconhecendo na própria proposta (portanto previamente) a sua imperfeição e reconhecendo a necessidade de considerar, racionalmente, as críticas que se lhe opõem é, simplesmente, querer se constituir como sujeito. Nesta condição, o indivíduo não fica limitado pelo realismo cínico — ou pragmatismo conformista — que congela o mundo como está. Um mundo determinado apenas pelas “forças materiais” nele operantes, sem corretivos conscientes daquilo que presumidamente “já está determinado pela história”. O ser humano pode não aceitar o ardil da “naturalidade”, pode “escolher entre alternativas” para o seu proceder na sociedade, não se conformando em ser simples reflexo da sua vida cotidiana. O impulso utópico que defende o aprofundamento constante da democracia passa a ser, pela afirmação subjetiva, uma vitória do espírito e um engrandecimento de “práxis”. Entendo que a crise política do PT tem, no fundo, uma clara relação de “causa-efeito” com a questão do chamado “fim das utopias” e da crise civilizatória do Ocidente. A inviabilidade humanística do socialismo “realmente existente”, a sua incapacidade de acabar com a pobreza, de conciliar as melhorias sociais que as revoluções produziram com a garantia dos direitos humanos e do pluralismo, a emergência do conservadorismo operário perante a imigração nos países desenvolvidos e perante as mudanças — tanto nas formas de prestação de serviços como no perfil do emprego — sucatearam provisoriamente a utopia petista. Isso ocorreu precisamente quando ela se defrontou com as necessidades concretas de governar, num mundo que é radicalmente adverso à democratização da renda e à reconstrução das funções públicas do Estado. Responder ao desafio de reconstruir suas instâncias de direção, seus métodos de governo interno e suas relações de confiança com a sua base militante é, certamente, um bom começo. Só isso, porém, não soluciona o impasse histórico que vivemos. Este só será respondido pela experimentação da combinação mais desafiante do nosso tempo: a combinação entre democracia e utopia. Sem o vínculo entre democracia e utopia, numa sociedade assediada por diferenças brutais, a mensagem da esquerda perde a capacidade de motivar e o partido que se propõe “de esquerda” precisará, cada vez mais, de dinheiro e de aparatos para comprar profissionais da política e da publicidade. O primeiro sinal externo de que a utopia democrática pode ser irrecuperável é a aceitação passiva da política como estética, que substituiu o conteúdo da luta pela apreensão passiva da mensagem.
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