Independentemente do desfecho das eleições do PT, que se realizarão no dia 18 de setembro, o maior partido de esquerda da América Latina enfrentará uma dura luta pela sobrevivência. "Utopismo" e "realismo" sempre estiveram presentes nas experiências de governo da esquerda revolucionária ou reformista: a "democracia dos sovietes" ou a ditadura do aparato estatal-partidário, na Revolução Russa; o avanço da "socialização" dentro da ordem ou o acordo conciliatório com a democracia cristã, no Chile de Allende; o "estímulo moral" de Che Guevara ou o castro-sovietismo, na Revolução Cubana ("nosso coração está na China, nosso estômago, em Moscou"); a revolução socialista ou a transição democrática, coordenada por Mandela do fundo dos cárceres da África racista; a redução drástica da jornada de trabalho sem rebaixamento de salários ou a competitividade internacional, no reformismo do primeiro governo Mitterrand. No labirinto petista há um jogo de espelhos, no qual a hegemonia do partido contempla a sua imagem e vê um tucano
Acredito que a história registrará que o governo Lula -"realista" que é-, comparado com os governos do período, foi um avanço notável para a consolidação democrática. Também alavancou o desenvolvimento do país e consolidou uma agenda social permanente na construção da nação. Se o presidente será candidato à reeleição ou não é uma pergunta que deve ser adiada para mais tarde, quando ele mesmo julgar oportuno reabrir o diálogo sobre esse novo desafio. Eu defendo que ele deve e pode enfrentá-lo.Mas, no PT dos dias de hoje, contudo, também venceram as posições puramente "realistas". O que era aceitável no governo por estrita necessidade se tornou pragmatismo sem limites, desconstituindo progressivamente os nossos compromissos de mudança social e econômica. Estes deram lugar à aceitação da estabilidade e da governabilidade não como metas fundadoras, mas como dogmática da manutenção do poder. Nesse contexto, o partido confundiu o que era e é uma obrigação primária do presidente, acima dos partidos e das corporações -criar condições estáveis para a economia e as instituições funcionarem normalmente com o seu papel de partido reformador.As ações partidárias e de governo que dão sustentação a esse tipo de política não são "naturais" nem públicas. São "reservadas" e sempre urdidas por meio de decisões técnicas e de gestão que nenhum presidente consegue acompanhar completamente. Saber se e como o partido se contrapôs a essa espontaneidade puramente aparente (aparente porque o que ocorreu foi uma técnica de controle para o poder pessoal) é a chave da nossa reconstrução como partido moderno e democrático.O partido não promoveu iniciativas políticas nem construiu conscientemente capital teórico para oferecer alternativas ao presidente Lula, como, aliás, tentaram fazer, em diversas oportunidades, os movimentos sociais, como o MST, o Conselhão, o Iedi (Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial), a CUT, a CNI e outras entidades, sempre sem qualquer respaldo orgânico do PT. Este, em vez de atuar com soberania crítica para colocar com rigor científico e força política alternativas ao presidente, limitou-se a cuidar, por meios informais, das realidades daquilo que Bobbio tratou como "poder invisível". E que Kant sancionava da seguinte forma: "Todas as ações relativas aos direitos de outros homens, cuja máxima não é suscetível de se tornar pública, são injustas". A discrição burocrática substituiu o debate democrático.O presidente Lula, por seu turno, nunca o interditou, nunca pediu qualquer silêncio obsequioso e, sempre que achou necessário, arbitrou as diferenças sem qualquer represália, enquadrando os seus ministros com a sua autoridade. A estratégia de hegemonia quantitativa da maioria, porém, transformada em poder unipessoal, dispensou qualquer fundamentação ou debate "para valer".No labirinto petista há um infinito jogo de espelhos, no qual a hegemonia petista, ainda em vigor -"realista" até perder as mínimas referências da sua história-, contempla a sua imagem e vê nela um tucano, também "realista" ao extremo, malanizado e econometrizado. O seu canto já é quase melancólico. O coro, ao fundo, repete em uma voz quase inaudível: "Estabilidade sempre, redução das desigualdades e distribuição de renda sempre mais tarde... sempre mais tarde... sempre mais tarde...", como se aquele tucano fictício fosse uma réplica neoliberal do corvo de Poe.As imagens, que em um primeiro momento se estranham, depois passam a tornar-se idênticas pela falta de precisão dos seus contornos. Se esse ciclo completar-se, perderá o país e a democracia, cuja dinâmica só emociona e enriquece a vida pública quando há oposição nítida de idéias e de projetos: o labirinto, então, poderá engolir o caminhante precocemente exausto. Aí, sim, "nunca mais!".O presidente Lula, que corretamente afastou-se do partido após sua posse (pois deve responder à nação e às suas instituições enquanto primeiro magistrado), merecia um partido mais maduro. Nenhum grupo isolado -refiro-me àqueles que não têm "planos de saída" ou estratégias messiânicas-, nenhum grupo isolado, repito, tem o mapa de saída do labirinto.Precisamos de um novo pacto de direção, de um programa mínimo de reconstrução do PT, o qual passa por um projeto de governo para o próximo período. Precisamos de um núcleo dirigente que seja respeitoso, mas severo com quem nos dirigiu autoritariamente para esta situação de descalabro político e moral. Assim, será possível juntar "bom senso comum" do nosso povo à utopia democrática refeita.
Tarso Genro, 58, advogado, é o presidente interino do PT. Foi ministro da Educação (2004-2005), ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2003-2004) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-96 e 2001-02). É autor de "Utopia Possível" (Artes e Ofícios), entre outros livros.
enviar para amigo |
Imprimir página atual | Topo da Página |
MENSAGEM AO 4º CONGRESSO NACIONAL DO PT enviado em 19/02/2010 18:24
CONSTITUIÇÃO SOCIAL E DIREITOS EFETIVOS enviado em 02/01/2010 13:49
MARXISMO, RELAÇÃO DE TRABALHO E DIREITO SUBJETIVO* enviado em 04/01/2010 13:26
O Fórum Social Mundial e a esquerda dez anos depois enviado em 03/02/2010 13:35
O Poder Judiciário na Sociedade Democrática Moderna enviado em 26/01/2010 10:51
CARTA MAIOR enviado em 30/11/2009 13:31
Da Avenida Paulista aos ianomâmis enviado em 02/10/2009 15:48
Mais além de janeiro enviado em 18/09/2009 09:34
Teoria da Democracia e Justiça de Transição enviado em 09/09/2009 15:48
Memória Histórica, Justiça de Transição e Democracia sem fim enviado em 14/05/2009 17:59
A Crise Global e o Estado de Segurança enviado em 14/05/2009 17:55
Em 15 de abril de 2009 enviado em 07/05/2009 14:39
RELATÓRIO enviado em 19/01/2009 16:26
Fala D'Alema enviado em 04/01/2009 13:48
Entrevista com Tarso Genro. enviado em 14/01/2009 13:41
CONSTITUIÇÃO SOCIAL E DIREITOS EFETIVOS enviado em 24/11/2008 14:04
Discurso do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama enviado em 07/11/2008 13:59
DISCURSO PANEGÍRICO enviado em 07/11/2008 13:57
MÉTODO E CONSTITUIÇÃO DIRIGENTE enviado em 03/11/2008 11:33
Milícias e Estado de Direito enviado em 30/06/2008 17:13
O Brasil da mídia e o Brasil real enviado em 03/04/2008 16:49
O Leninismo como raiz da crise socialista* enviado em 27/03/2008 17:33
São Paulo, domingo, 09 de março de 2008 enviado em 12/03/2008 13:34
DEMOCRACIA, SOCIEDADE E SUSTENTABILIDADE enviado em 07/02/2008 10:15
Carl-Herz-Ufer enviado em 29/01/2008 13:02
Segurança política e Direitos Humanos enviado em 18/01/2008 10:58
CRIAÇÃO DOS CURSOS JURÍDICOS NO BRASIL enviado em 10/08/2007 13:36
“REFORMA POLÍTICA É PROCESSO, NÃO ATO ISOLADO” enviado em 11/07/2007 09:56
A dispersão das ideologias enviado em 15/01/2007 13:41
Governo de Coalizão enviado em 15/12/2006 15:55
Uma lembrança por Günter Grass enviado em 15/12/2006 15:47
Mais além do populismo enviado em 20/11/2006 09:03
Moral e política na sociedade em movimento enviado em 19/10/2006 09:36
INSTABILIDADE E GOLPISMO enviado em 28/09/2006 16:03
ELEIÇÕES 2006 enviado em 26/09/2006 17:06
O FIM DA POLÍTICA enviado em 04/09/2006 10:31
A questão democrática como questão da esquerda enviado em 23/08/2006 10:01
EDUCAÇÃO enviado em 15/08/2006 15:09
REFORMA E PODER CONSTITUINTE enviado em 09/08/2006 14:38
VIA POLÍTICA enviado em 27/07/2006 14:10
Concertando a reforma enviado em 13/06/2006 10:36
Introdução à Reforma enviado em 06/06/2006 16:02
UNIVERSIDADE, COOPERAÇÃO INTERNACIONAL E DIVERSIDADE enviado em 24/05/2006 08:30
Ensaio para abril enviado em 05/04/2006 11:08
Sobre o entendimento enviado em 14/03/2006 15:39
Por que não sou candidato enviado em 07/02/2006 16:28
Os conteúdos da Revolução Democrática enviado em 31/01/2006 11:43
É possível combinar democracia e socialismo? enviado em 09/01/2006 11:47
Lula pode ganhar enviado em 29/12/2005 08:19
A crise política na revolução democrática enviado em 08/12/2005 15:38
O retorno da utopia enviado em 14/10/2005 10:12
NOTAS SOBRE UMA NOVA ETAPA NA POLÍTICA ECONÔMICA SOB enviado em 21/11/2005 10:07
O PT em seu labirinto enviado em 02/09/2005 15:30
Além do Fato: De Borges e do PT enviado em 27/09/2005 15:25
O PT, ele mesmo, como crise enviado em 08/07/2005 11:37
PALÁCIO DO PLANALTO enviado em 14/06/2005 11:21
Falsa polêmica enviado em 30/05/2005 11:18
Zero Hora - 28/04/2005 enviado em 28/04/2005 16:26
São Paulo, quarta-feira, 27 de abril de 2005 enviado em 27/04/2005 11:28
Passada a artilharia enviado em 03/03/2005 10:28
A FAVOR DA ELITE PLURAL enviado em 28/02/2005 15:16
Fazendo a reforma que precisa ser feita enviado em 11/02/2005 16:27
As raízes da crise na educação básica enviado em 18/01/2005 10:13
Orientando o preconceito enviado em 14/01/2005 15:56
Crise do Estado como crise política enviado em 13/01/2005 09:03
UNIVERSIDADE E NAÇÃO enviado em 04/01/2005 11:22
ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL ZERO HORA - 03/01/2005 enviado em 03/01/2005 10:41
PT saiu derrotado destas eleições? enviado em 09/11/2004 10:47
Choques e voluntarismo enviado em 20/10/2004 08:41
A esquerda depois de Blair enviado em 16/06/2004 15:06
Educação e transição enviado em 27/07/2004 10:54
ESQUERDA E SEGURANÇA NA AVENTURA DA MUDANÇA enviado em 01/06/2004 13:59
Elitismo e esquerdismo enviado em 24/05/2004 16:55
Universidade para todos enviado em 17/05/2004 15:36
Entrevista enviado em 14/05/2004 16:24
Uma outra lição espanhola enviado em 07/05/2004 11:00
TEORIA CRÍTICA DA AUTOCOMPOSIÇÃO* enviado em 26/12/1991 10:40
Natureza jurídica do Direito do Trabalho enviado em 26/04/1991 10:28
CONTRIBUIÇÃO AO DEBATE SOCIALISTA* enviado em 04/08/2001 13:41
QUINZE PONTOS PARA UMA PERSPECTIVA ESTRATÉGICA DE CENTRO-ESQUERDA PARA O GOVERNO LULA enviado em 15/12/2003 13:05
GLOSSÁRIO PARA UMA “ESQUERDA DEMOCRÁTICA” (NO GOVERNO E FORA DELE)* enviado em 15/10/2003 12:04
FUNDAMENTOS PARA UM PROJETO DE INSTITUIÇÕES POLÍTICAS NO SOCIALISMO* enviado em 15/03/2001 12:55
Cotas, Direito e Democracia enviado em 12/04/2004 12:09
Reforma Universitária enviado em 25/03/2004 10:26
AULA MAGNA enviado em 22/03/2004 14:36
Kelsen e Renner conversam com Norberto Bobbio enviado em 17/02/2004 15:27
O governo Lula e a conciliação das elites enviado em 18/01/2004 15:16
Ética pública e elogio da serenidade enviado em 29/02/2004 14:49
Democratismo Globalitário enviado em 24/09/1990 04:24
Esquerdismo e Neoliberalismo enviado em 20/01/2002 00:37
Chávez e Lula enviado em 17/09/2003 00:26
Outras Lições Espanholas enviado em 29/05/2003 00:23
Utopia e Realismo na Esquerda enviado em 13/04/2003 00:21
O governo Lula e os novos especialistas enviado em 24/12/2003 00:03
Nem tão distante nem tão impossível enviado em 16/11/2003 23:57
O Mundo Respira no Fórum Social Mundial enviado em 04/02/2002 23:54
Esquerda em processo enviado em 18/05/2003 23:50
As Premissas da Concertação enviado em 28/09/2003 23:47
Socialismo e governo Lula enviado em 06/08/2003 23:43
Atravessar os limites enviado em 23/12/2003 23:40
A Dinâmica dos Conflitos enviado em 25/02/2001 17:59