Os erros graves que dirigentes do PT cometeram relativamente a financiamentos de campanha, combinados com a ausência de marcos divisórios claros entre as funções de governo e as funções de partido – com responsabilidade política evidente de dirigentes partidários – geraram uma crise que já dura mais de cem dias. Desta crise, o PT sairá melhor a partir do reconhecimento dos equívocos, o governo voltará a governar normalmente e as instituições democráticas sairão fortalecidas. Elas responderam suficientemente à crise, pois pelo menos uma parte dos que cometeram ilegalidades será punida, o que já é um avanço no país da impunidade secular. Todos os partidos terão mais cuidados com a legalidade das campanhas eleitorais e incorporarão algo de bom das lições do presente.
Talvez o pior legado da nossa primeira experiência de governo seja as conseqüências políticas dos erros cometidos. Eles permitiram a revitalização política de grupos, no interior dos partidos de oposição, que sempre tiveram uma postura predatória em relação aos bens e aos costumes públicos. Estes grupos receberam um carinhoso tratamento, acrítico e omissivo, por parte da grande mídia, para declararem a sua sadia moralidade, através dos sistemáticos ataques ao PT. Falo em “grupos”, porque tenho como óbvio que a maioria das pessoas nos partidos são pessoas comuns, honestas, inclusive no PSDB e no PFL, e nenhuma comunidade partidária pode ser incriminada em abstrato
O longo e tortuoso caminho da revolução democrática inconclusa no Brasil, portanto, prosseguirá. Por caminhos às vezes ambíguos, por labirintos indecifráveis, por “idas” e “vindas” da democracia política, impulsionada partir da Revolução modernizadora de 30. O processo democrático sofrerá grande avanço, após uma reforma política que começa a aparecer no horizonte. E certamente “cobrar as contas” de todos os responsáveis, atuais e precedentes, será um avanço ainda maior.
A luta política que se trava em torno dos fatos que determinaram a situação atual, não é contra a “corrupção” ou contra os “desmandos do PT”. Isso é o que querem fazer crer as velhas oligarquias, que sempre fruíram das benesses distribuídas pelo Estado patrimonialista. Nem é uma luta pela “ética pública”, como querem nos impingir as elites “sociais-democratas” pós-modernas, recentemente adeptas da mais estrita moralidade pública.
A luta política que está se travando, não a partir das justas notícias sobre as ilegalidades cometidas pelo PT, mas a partir do discurso de ódio e difamações contra toda a nossa coletividade partidária – sem limites, sem preocupação com a seletividade, a maioria das vezes sem qualquer preocupação com indícios de provas – é uma luta contra a possibilidade de “permeabilizar” o poder de Estado. Impermeabilizá-lo, portanto, contra projetos que não aceitem a voz do “caminho único” da globalização tutelada pelo capital financeiro. Nem se trata de uma perseguição ao PT, como asseveram companheiros meus: é uma tentativa de eliminação de uma perspectiva democrática de esquerda, que tem no PT, hoje, o mais forte porta-voz.
Qual o “pagamento”, a longo prazo, que o PT deverá arcar pelos seus erros, ainda não está claro. Vai depender da profundidade de uma mudança interna que recém começou a esboçar-se, bem como da solução das questões programáticas e políticas pendentes, que não se originam da presente situação. Insisto que a inexistência de “paradigmas” – da esquerda governando e realizando mudanças progressistas dentro da democracia – e, de outra parte, a falta de clareza nas alternativas ao neoliberalismo que consigam base social organizada de apoio, ainda permanece vivo.
O roteiro de denúncias contra o PT desenvolveu de forma só aparentemente espontânea um outro processo. Ele é muito mais sutil, mas culturalmente coerente com a história das elites do país, que se sucederam no poder com breves intervalos: trata-se de um processo de “limpeza” da memória popular, de todos os desmandos, corrupções, aparelhamento da máquina pública, feitos pelos partidos e grupos de interesse, nos últimos 50 anos.
Não é gratuito que os ataques ao PT vêm acompanhados da informação que “aquilo que o governo Lula tem de bom veio do governo FHC”, ou seja do governo do PSDB-PFL. Trata-se de uma fraude gritante contra o bom senso, pois o resultado dos dois governos foi inflação alta, aumento da dívida, crescimento econômico nulo, políticas sociais próximas de zero, privatizações selvagens, juros na estratosfera, submissão galopante à política externa americana, fraude cambial para preparar a reeleição, balança comercial negativa e ainda maior concentração de renda no país.
Os governos Collor e Fernando Henrique, por exemplo, fizeram a mais formidável destruição da máquina pública e dilapidação econômica do país. Entregaram ao presidente Lula um país totalmente quebrado. Os egressos destes governos, porém, mesmo os que tinham migrado para “lado de cá”, são os mais agressivos denunciantes do governo Lula e do PT. Sãos os novos vestais da moralidade, que substituem uma certa parte do PT, que se avocava a representação absoluta do bem e que perdeu o senso histórico e a modéstia republicana quando chegou ao poder.
Agora é hora de verificar o seguinte: a campanha “contra a corrupção” já se esgotou? Era só contra o PT? Ou vamos passar o país à limpo? Como? Buscando os corruptores históricos na sua relação com o Estado, as relações financeiras legais e ilegais, os vínculos internacionais, o nexo com as privatizações, as cumplicidades com os crimes do “colarinho branco”, as relações dos corruptores com todos os partidos, que não começaram nos últimos três anos.
Fernando Henrique deu a “linha justa” tucana, acolhida pela maior parte do jornalismo investigativo do país, quando as provas começaram a desbordar para a apuração de um sistema histórico de corrupção. Primeiro afirmou que as investigações não deveriam perder o “foco”: quis dizer é que as investigações não poderiam perder o foco no PT. Depois afirmou que os fatos do seu governo “já pertenciam à História”, por isso não caberia investigá-los: o que quis dizer é que a História, em si mesma, absolve os tucanos e os aliados do PFL, sem julgamento que venha das instituições humanas. Realmente é uma opinião principesca que só prospera porque conta com a cumplicidade de boa parte dos “formadores de opinião”.
Borges dizia que salvo nas severas páginas da História, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Estas memoráveis frases de Fernando Henrique serão inscritas nas páginas da nossa História, quando o período atual for reescrito de forma severa. Elas certamente serão apresentadas como a melhor síntese do cinismo e da falta de espírito público da parte mais ousada do tucanato impune.
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