Um partido político sai derrotado de um processo eleitoral quando reduz a sua capacidade de intervenção no processo político em curso e/ou quando os seus objetivos estratégicos ficam minimamente comprometidos. Sustento que nenhum dos efeitos acima referidos estão sendo vividos pelo PT. O que não quer dizer que não tenhamos aprendido algumas lições importantes, inclusive para o nosso futuro imediato.
Dados comparativos exemplificam melhor esse pensamento. Em 2004, contabilizamos 16.322.404 votos válidos, um número bem acima dos 11.938.753 votos válidos no ano 2000. O número de prefeitos eleitos em 2004 -411- também foi bem maior que os 187 eleitos quatro anos antes. O mesmo se deu com o número de capitais que elegeram prefeitos pelo PT, nove neste ano, contra seis no ano 2000. Então, verificamos que o percentual de reeleição de prefeituras entre os maiores partidos, de 2000 a 2004, aponta o PT como o partido vitorioso: PT (44,4%); PFL/ PMDB (32,4%) e PSDB (31,1%).
Tivemos mais prefeitos reeleitos do que qualquer outro partido e aumentamos o número de votos nominais e de prefeitos eleitos, tanto no interior como nas capitais dos Estados: o PT cresceu, portanto, seja em números absolutos, seja nos percentuais de reeleição.
A perda de Porto Alegre, para uma frente liderada pelo PPS, e a perda de São Paulo, para uma frente liderada pelo PSDB, são duros golpes na nossa auto-estima. Mas essas derrotas não reduziram a nossa capacidade de intervenção política nacional nem diminuíram a força estratégica necessária para enfrentarmos a disputa por um segundo mandato presidencial.Esse fato pode ser verificado tanto pelo crescimento do PT nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país como pela influência obtida por meio de alianças no primeiro e no segundo turno. As derrotas sinalizaram, porém, a necessidade de compreendermos que estamos entrando num novo ciclo da vida partidária. Houve um evidente deslocamento de setores médios da sociedade -que neste momento não se consideraram incluídos no nosso projeto- , que foram para um campo disperso, de caráter aparentemente centrista, no qual se reproduz ou um forte ceticismo político ou um "antipetismo" extremado. Quais os motivos que levaram a prosperar, ainda que parcialmente, um antipetismo radical é uma questão a ser avaliada.
Estive em São Paulo e vi a prefeita Marta, num CEU, ser recebida com carinho e exaltação pelo povo trabalhador da periferia, espaço onde o PT jamais conseguiu maioria expressiva. Fiz campanha -entre outros locais- em Porto Alegre, onde fomos recebidos com respeito e adesão nos mais diversos lugares da cidade. Mesmo com a derrota, em ambas as cidades angariamos votação expressiva, que, desde logo, coloca-nos em condições de disputa para os governos estaduais em 2006.
O encanto e a esperança chocaram-se, é verdade, com a dura realidade de governar um país que esteve à beira do abismo, bem como bateram de frente com o desafio de governar cidades que continuam com legiões de excluídos, sem teto e sem trabalho.
Mas obter esses resultados, que são plenamente razoáveis, só foi possível porque o governo do presidente Lula está sendo compreendido e aceito pela maioria da população e também porque o PT, sendo bom de oposição, já aprendeu a ser bom governo. Para que se tenha uma avaliação mais ampla a respeito do resultado das eleições é também importante situar o Partido dos Trabalhadores dentro do quadro atual da esquerda mundial e da enorme complexidade política que ele enfrentou, e enfrenta, para se tornar um partido dirigente, de esquerda, no âmbito da democracia de Estado e direito.
O PT é um partido "pós-comunista" e "pós-social-democrata", originário de diversas fontes sociais e ideológicas, que se constrói contra o "senso comum" formado nos últimos 30 anos pelo ideário neoliberal: defende um Estado fortalecido para produzir políticas públicas amplas; mantém os ideais de justiça social tendo a idéia socialista como reguladora; legitima a busca da igualdade, os ideais de solidariedade entre as nações e a não-aceitação de ditames imperiais.
Ora, ao longo dos últimos 12 meses o nosso partido foi bombardeado maciçamente com uma estranha acusação "tucana" que foi largamente divulgada: se o partido se fortalecesse nas eleições, seria "autoritarismo"; seria perigoso para o Estado de Direito se o PT crescesse ainda mais do que cresceu com Lula na Presidência.
Enfrentar essa cultura semeada de preconceitos e reproduzida amplamente por grande parte dos formadores de opinião da grande imprensa (alguns chegaram a propagar que, caso o PT se fortalecesse nas eleições, o Estado de Direito estaria em perigo) não foi fácil, foi uma tarefa árdua que não cumprimos de todo. Mas enfrentamo-la igualmente bem, porque as nossas perspectivas de solidez política e crescimento dentro da democracia permanecem fortalecidas.
Tarso Genro, 57, advogado, é o ministro da Educação. Foi ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (2003).
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