01/06/2004 13:59
ESQUERDA E SEGURANÇA NA AVENTURA DA MUDANÇA
- uma outra esquerda no governo Lula -
Publicado na revista Carta Capital - nº 293 - 02/06/2004

A parte inovadora da esquerda, que pretende interferir no processo político em curso, segundo uma visão de mundo não fundada na “ideologia proletária” (que caracterizou as posições emancipacionistas no período de emergência da classe operária industrial) - esta parte da “nova esquerda” -, deve incorporar as questões da “segurança” e do “modo de vida” como elementos tão importantes como aqueles tipicamente econômicos, que moviam as grandes aspirações operárias do século passado.
Há hoje um evidente contraste entre a necessidade lógica de repartir democraticamente a renda, como princípio socialista ou social-democrata (repartição racional dos meios de reprodução de existência) e sua quase-impossibilidade histórica (descontrole técnico e político do atual processo de acumulação). Este contraste, entre “necessidade” e “quase-impossibilidade” é um elemento estrutural da realidade social e política de países como o nosso.
Principalmente nos países que estão fora do núcleo orgânico do sistema capitalista mundial, o processo de acumulação está fora do controle imediato dos sujeitos políticos, pois os projetos de desenvolvimento estão subordinados à estabilidade financeira e esta vincula-se diretamente ao pagamento da dívida pública. Esta relação liga politicamente a idéia de desenvolvimento com a suposta legitimidade da concentração do capital-dinheiro, que se processa e se reforça com a necessidade de financiamento da dívida pública.
As classes trabalhadoras empregadas - antigos esteios da revolução e da reforma - tanto psicológica como objetivamente compõem o elenco das classes incluídas, que se sentem permanentemente ameaçadas pela marginalidade dos excluídos. Estes tensionam, cotidianamente, pela sua insatisfação ostensiva, contra a estabilidade no mercado de trabalho, aumentam o mercado informal e explodem em atos individuais de violência criminosa.
Aquela “ameaça”, portanto - recebida por modos de vida totalmente opostos - é fator de insegurança pública, já como fenômeno de massas, não mais como tensão residual ou circunscrita. A segurança (seu contrário), por seu turno, só é vivida dentro das formalidades do Estado de Direito, como o oposto da informalidade, por uma parte minoritária da sociedade. Mas, dentro desta minoria estão incluídos os trabalhadores empregados formalmente - “antigos esteios da revolução e da reforma” - que permanecem protegidos pelo sistema jurídico do Estado de Direito, cada vez mais alheios às massas dispersas do mundo do trabalho em crise. A unificação pelo temor, nos setores sociais incluídos, firma-se pela possibilidade das pessoas buscarem a perspectiva de “estarem seguras” na vida social comum: estabilidade da moeda, estabilidade no trabalho, estabilidade política, compõem a segurança da vida cotidiana. A prudência e o realismo configuram a contrapartida da insegurança, para a esquerda que governa para mudar dentro da democracia.
A alteração de condutas na ação política, nestas circunstâncias, origina-se de uma nova qualidade nos conflitos de classe típicos da sociedade industrial. Eles já são mais conflitos entre fragmentos desarticulados de classes destruídas pela globalização combinada com a revolução digital-informática, do que “conflitos diretos” de classes organicamente estabelecidas.
Observe-se que os antigos “conflitos diretos” de classe eram negociados de forma mais ordenada dentro da democracia - com sujeitos representativos e visíveis - e geravam um reduzido grau de anomia. Os conflitos entre os fragmentos são mais complicados de serem ordenados, pois os sujeitos são dispersos e fragmentários: a anomia está sempre à espreita. E a anomia favorece a insegurança e reforça o conservadorismo que mantém o “status quo” neoliberal global.
Mas a fragmentação, já sustentada pela ausência de uma firme estrutura e cultura classistas, complica a sobrevivência política e ideológica da velha esquerda. Para forçar sua relegitimação ela se torna - então - cada vez mais ideologizada e busca reavivar os projetos anteriores, através do ressentimento e do “ódio de classe”. Desta feita, porém, sem classes orgânicas que compartilhem de uma cultura de confronto.
Esta síntese negativa é o drama histórico e político crucial da época atual, que vem acompanhado de um desgaste crescente da atividade política: a política tende a tornar-se economicismo “puro” e a economia tende a tornar-se política “pura”.
A atividade política, como “economicismo puro”, transforma as categorias da política em retórica econômica (“primado de estabilidade”, “prevenção do choque externo”, “ajuste”) que não aceita a mediação da ética e é, portanto, isenta das interferências subjetivas. A saída “vodu” da solução imediata e mágica, propugnada pelo espontaneismo, tende a ser expressa também como economicismo puro, travestido de “decisão escolhida”: é o “choque econômico”, ante-sala do caos.
Por sua vez, a economia transformada em “política pura” esquiva-se do sujeito e politiza-se só como aparência. O sujeito, nestas circunstâncias, ao verbalizar as categorias da economia de forma predicativa serve-se das categorias da economia para uma promessa de moral social e políticas públicas que são apenas uma teleologia ideal: “ajuste, para incluir os excluídos no futuro”; “prevenção do choque externo, para não comprometer a coesão social”; “primado da estabilidade, para colher os frutos no próximo período”. É o momento em que a “prudência” pode paralisar a mudança.
Assim, quando os limites não podem ser concretamente rompidos as insatisfações são expressas, de forma humanista ou anti-humanista, mas apenas esteticamente: é o espetáculo da “internacional dos fragmentos” nos Foros Sociais Mundiais, o “espetáculo” do terror nas ações de Bin Laden, o “espetáculo” da política midiática através de tecnologias manipulatórias, o “espetáculo” da “ação direta” não-universalizada como luta ecológica, de gênero ou de raça.
Qual a saída?
A grande tarefa teórica e política, nestas circunstâncias, é reconstituir uma esquerda democrática potente, capaz de - por dentro da política do espetáculo - sair do espetáculo para uma ação política democrática de longo curso: uma ação que leve em consideração a fragmentação social e a divisão da consciência social em fragmentos de revolta e passividade. Esta divisão da consciência, que hoje só se unifica pelo medo no espaço constrangedor da insegurança, é o símbolo da dissolução negativa das ideologias tradicionais de classe. Do ponto de vista da esquerda, que se propõe ter viabilidade histórica hoje, a consciência emancipatória só poderá ser reunificada por um impulso de crescimento na economia que gere a reintegração das pessoas em classes orgânicas.
Há, também, a hipótese desta “reunificação” ser processada através do autoritarismo e do choque, “via” aumento da desordem e da saída para a revolução. Ela - a revolução - ainda pode constituir uma nova totalidade, mas só vingará pela ditadura do aparato estatal-partidário, única fonte que poderá garantir a recoesão (forçada) da sociedade, logo uma nova preliminar da tragédia.
A outra possibilidade é o controle público e democrático do Estado de Direito e o crescimento com distribuição de renda, através do qual uma maioria social reconheça-se nas políticas do Estado, como integrante da República, fundando uma comunidade mais igual, coesa, segura e estável, que reconstrua o projeto e a idéia de nação.
O que precisa ser compreendido por toda a esquerda que renegou o totalitarismo do aparato estatal-partidário, é que o governo do Presidente Lula vive plenamente a época e por isso encarna todas as suas contradições. O Governo atual, com a grandeza do seu Presidente, é o espaço histórico real que a sociedade brasileira construiu para buscar a segunda possibilidade.
A “nova esquerda” deve enfrentar, no plano teórico e político, tanto a “esquerda tradicional”, para trazê-la para o sustento desta possibilidade, como o “centro democrático”, que aceita a democracia política como o terreno irrenunciável no qual o futuro de todos se decide.












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