A vitória do Partido Socialista, na Espanha, levando à presidência de governo seu líder máximo José Luis Rodríguez Zapatero, mostra a profunda diluição, em grande parte, do ''caráter de classe'' das disputas políticas nos países europeus, nos quais a estabilidade democrática combinou-se com um mínimo de bem-estar social. As condições para isso - no caso da Espanha - foram preparadas pelos governos de Felipe González, que reorganizaram totalmente os serviços públicos, modernizaram a economia e integraram, política e economicamente, a Espanha à União Européia. O custo foi extremamente pesado: na época da reconversão da economia atrasada e fechada em economia integrada, globalmente, o desemprego chegou perto dos 22%. Mas as lições da Espanha podem ser ampliadas.
A Espanha passou por um profundo processo de modernização democrática e alcançou um outro patamar civilizatório. Ao que parece, parte da esquerda não acompanhou esse processo e ficou totalmente fora dele, pagando o preço de exercer pouca influência sobre o que ocorre no presente. Outra parte acompanhou ''demais'', ou seja, ''desistiu'' de qualquer pretensão utópica e convergiu para o cinismo total da reverência ao mercado. Tornou-o não um dado essencial para a projeção das políticas públicas estratégicas, mas um dado ''absoluto'' para a determinação da vida e do Estado. Entre essas duas opções renasce a esquerda espanhola, calejada pelas experiências do exagero liberal ou pela cegueira do dogmatismo, que se refugiam - respectivamente - ou nos valores da III Internacional ou no ''Programa de Transição'' do velho trotskismo.
Mas, a vitória de Zapatero contra Aznar foi uma vitória ''de esquerda''? Não nos iludamos, não foi. Pelo menos a partir daqueles valores fundamentais que ergueram a esquerda mundial no século XX à condição de depositária das lutas pela justiça e igualdade social, com fundamento nas mobilizações do mundo do trabalho. A vitória de Zapatero foi a vitória da idéia republicana e democrática da neutralidade formal do Estado, que supõe que a enunciação da verdade está acima dos interesses do governante, para que este possa representar o ''bem público'' acima dos interesses de grupo ou de classes.
É notório que, mesmo tendo ido para uma guerra injusta, Aznar estava comodamente instalado em primeiro lugar nas preferências eleitorais. Só perdeu esse posto privilegiado quando - segundo notícias de toda a imprensa mundial - os porta-vozes do Governo passaram a manipular informações para obterem vantagem eleitoral com a inculpação do ETA. A partir desse fato, mesmo com a cumplicidade da maior parte dos meios de comunicação, especialmente televisivos, formou-se uma rede espontânea de intercâmbio de opiniões.
Essa rede operou através de mensagens ''via internet'' e pelos telefones móveis, conscientizando a cidadania de que a ''efetividade'' da democracia estava em perigo. O que determinaria, então, a vitória de Zapatero estava posto: não seria a distribuição de renda, as taxas de crescimento, as demandas dos servidores públicos, a reação da Bolsa de Valores, mas as inverdades sobre a Guerra. Nem ter ido à Guerra, propriamente, foi o motivo da derrota de Aznar (já que seguir a orientação americana ''de fazer a Guerra'' não o fez perder o favoritismo), mas mentir sobre as conseqüências do ato de ir à Guerra - conseqüências terríveis - foi o que jogou boa parte do eleitorado para a oposição socialista.
Novamente a questão da ''segurança'' apareceu como centro da questão política nacional. Não mais a segurança da moeda, da evasão de divisas ou a segurança dos contratos, mas a segurança quanto ao ''modo de vida'' pacífico e democrático -independentemente de qual seja o seu mérito social - conquistado pelos espanhóis depois do franquismo. Esse ''modo de vida'' foi afiançado por uma Constituição avançada, que orientou aquela nação no caminho do progresso e das liberdades públicas, mesmo com a violência terrorista do ETA instalada em seu território.
A política democrática mudou muito no cenário anárquico, instaurado pelos interesses predatórios do hegemonismo financeiro por dentro da globalização. Neste período histórico, só o fato de pertencer à sociedade formal ou estar próximo dela, mesmo através de políticas compensatórias, já é uma grande vantagem. É melhor do que estar na marginalidade ou não ter qualquer ponto de referência grupal ou de classe, para orientar-se na vida cotidiana.
Desse atraso da consciência média das maiorias é que se constroem, lamentavelmente, as políticas eleitorais em qualquer país. O melhor seria que as decisões do eleitorado se dessem através da escolha dos programas e das trajetórias das lideranças em disputa, mas não é assim na vida. Por isso, qualquer partido de esquerda que queira, efetivamente, compartilhar do processo democrático e aperfeiçoá-lo, deve estar atento para essas novas condicionantes da política moderna, com suas novas formas de diferenciação entre as propostas, nas quais a esperança está unida à ética pública.
O compromisso surpreendente assumido pela vitória de Zapatero é dramático, pois a sociedade espanhola estava letárgica entre dois comportamentos políticos, que pouco se diferenciaram quando no governo. A diferenciação que lhe deu a vitória sequer foi proporcionada pela ação política dos socialistas, mas foi determinada por uma tragédia de grandes proporções: não falar a verdade sobre as origens da tragédia foi um desvelamento da culpa ''de ir à Guerra'', ação agora já vista como uma agressão aos fundamentos da própria democracia. Daí Zapatero venceu.
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